A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA) participou, na última terça-feira (10), do encontro que marcou a proposta de criação de um Comitê Permanente voltado à valorização da comida de verdade e ao fortalecimento do tradicional Prato Feito, a combinação reconhecida pelo equilíbrio entre carboidrato, proteína vegetal, legumes e verduras. A reunião ocorreu em São Paulo no Dia Mundial do Feijão.
Representando a SAA, esteve presente o subsecretário de Agricultura, Orlando Melo de Castro, além de instituições públicas e privadas convidadas, como APTA, APAS, universidades e entidades ligadas à pesquisa, produção e varejo.
A proposta do comitê é transformar o consenso sobre a importância da alimentação tradicional brasileira em ação estruturada e contínua, com governança, metas e indicadores. A iniciativa pretende integrar esforços já existentes e organizar um plano de trabalho para 2026, incluindo articulação com a alimentação escolar, comunicação com linguagem simples e mobilização de diferentes atores da sociedade.
Alimentação equilibrada e saúde pública
Base da alimentação brasileira por gerações, a combinação arroz e feijão representa um modelo nutricionalmente equilibrado, ao unir carboidrato e proteína vegetal de alta qualidade, além de fibras, ferro e outros micronutrientes essenciais.
De acordo com a equipe de Nutricionistas da Diretoria de Segurança Alimentar da SAA, o feijão, classificado como leguminosa, além de ser uma das principais fontes proteicas na alimentação dos brasileiros, também é rico em carboidratos e constitui uma excelente fonte de fibras, vitaminas B1 e B3, ácido fólico, potássio, fósforo, ferro e magnésio. Entre seus benefícios estão a melhora da saúde intestinal, o maior controle do colesterol e o estímulo da saciedade, fatores que contribuem para uma alimentação mais equilibrada e para a prevenção de doenças crônicas.
Dados da Embrapa indicam que o consumo per capita de feijão no Brasil atingiu seu pico entre 1961 e 1970, com média de quase 23 kg por pessoa ao ano. Desde então, houve queda contínua, chegando em 2024 ao menor índice da série histórica. A redução está associada principalmente às mudanças nos hábitos alimentares e no estilo de vida da população, como famílias menores, rotina urbana acelerada e diminuição do hábito de cozinhar em casa.
Especialistas apontam que essa transição alimentar tem sido acompanhada pela maior presença de produtos processados na dieta cotidiana, o que pode contribuir para desequilíbrios nutricionais e impactos na saúde pública, incluindo o aumento da obesidade infantil e de doenças crônicas não transmissíveis.
Nesse contexto, a criação do comitê surge como iniciativa estratégica para estimular o resgate de padrões alimentares mais saudáveis, fortalecendo o consumo de feijão e demais alimentos in natura ou minimamente processados.

Participação do Governo de SP: pesquisa, qualidade e merenda escolar
A SAA e a APTA reforçam o papel de São Paulo na pesquisa agropecuária, na qualidade do produto final e na promoção de políticas públicas voltadas à alimentação saudável.
O subsecretário Orlando Melo de Castro destacou a alimentação escolar como estratégia decisiva para reconstruir hábitos e preferências alimentares: “Inserir de fato o feijão na merenda escolar para que as crianças aprendam a comer feijão e gostem. Ele tem que ser muito bem preparado, porque percebemos muitos jovens que pararam de consumir feijão e perderam esse hábito.”
A articulação com a rede de alimentação escolar é vista como ponto-chave para formar novas gerações com maior consciência nutricional e vínculo com a comida de verdade.
Comitê: unir argumentos, coordenar ações e ampliar impacto
O presidente do IBRAFE, Marcelo Eduardo Luders, afirmou que a força do comitê está em organizar esforços e alinhar mensagens de forma prática e contínua: “Organizar os esforços para que todo mundo atire na mesma direção, use os mesmos argumentos, e o comitê é o primeiro passo.”
Segundo Luders, a iniciativa também permitirá a criação de grupos de trabalho dedicados a frentes específicas, como mobilização social, comunicação e parcerias institucionais: “Dentro do comitê, algumas células vão se dedicar à busca de recursos, e o comitê terá a missão de começar por algo simples, dando os primeiros passos para que isso aconteça.”
Experiências internacionais mostram que campanhas coordenadas de valorização de alimentos tradicionais podem contribuir para a recuperação de padrões alimentares mais saudáveis, reforçando a importância da articulação entre governo, setor produtivo e sociedade civil.
Próximos passos
Neste primeiro encontro, foram debatidas as principais dificuldades do setor e os desafios relacionados à mudança de hábitos alimentares. Com a proposta de criação do comitê, a expectativa é dar continuidade às iniciativas, com integração entre instituições e construção de um plano com prioridades definidas.
Entre os eixos previstos estão ações junto às escolas, campanhas de comunicação pública, incentivo à pesquisa e engajamento social, sempre com foco na valorização da alimentação equilibrada e no fortalecimento do consumo de feijão como componente essencial da dieta brasileira.