Inicialmente uma área de produção agrícola, a Fazenda Mato Dentro se tornou referência em pesquisa em sanidade agropecuária
O Brasil ainda vivia o período das sesmarias, durante o qual a Coroa Portuguesa distribuía lotes de terras para estimular a produção agrícola no interior do país, quando foi criada em Campinas a Fazenda Mato Dentro. Desde a fundação, em 1806, com vocação inicial para cana-de-açúcar, a área atravessou diversos outros ciclos, como o do café, até passar a ser propriedade do Estado de São Paulo, em 1937. A incorporação possibilitou transformar o que era uma unidade produtiva privada em um espaço voltado ao interesse público: nascia a Fazenda Experimental do Instituto Biológico (IB-APTA), um inestimável acréscimo à instituição fundada na década anterior, na capital paulista, com a missão de controlar pragas que ameaçavam a agricultura estadual. Partindo desse primeiro passo de expansão, o Instituto, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, conta hoje com 9 unidades distribuídas pelo território paulista e é sinônimo de prestígio junto ao setor agropecuário e ao produtor rural.
De potência produtiva a referência científica
De acordo com o pesquisador do IB Cláudio Marcelo Oliveira, a trajetória da Fazenda Mato Dentro revela-se emblemática não apenas por seu passado econômico, possivelmente figurando entre as primeiras experiências de cultivo comercial de café no Estado, mas sobretudo por sua profunda transformação institucional ao longo do tempo. “Tendo sido precursora da produção de café na região, a Fazenda voltou a se destacar por estar à frente de seu tempo, ao ser reconhecida como um marco do empenho do Estado de SP na vanguarda da pesquisa científica aplicada”, comenta.
Pesquisador científico do Laboratório de Nematologia da Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento em Sanidade Agropecuária (DAPSA) – que é o nome da Divisão de Pesquisa do IB que atualmente compreende a maior parte da área –, Oliveria se uniu a outros três autores para realizar um levantamento histórico a respeito da Fazenda, reunindo informações preciosas sobre a evolução de seu uso durante mais de dois séculos. O artigo Da sesmaria à ciência pública: 220 anos da Fazenda Mato Dentro e a consolidação da ciência agrícola paulista, publicado na revista Páginas do Instituto Biológico (disponível neste link), conta como, desde o princípio, a Mato Dentro era uma força propulsora da economia local.
“Além da produção em si, a fazenda também contribuiu para o desenvolvimento da região ao impulsionar atividades como transporte e comércio”, conta a Eng. Agrônoma Erika Seguchi, doutoranda no IB e coautora da publicação. De acordo com ela, esse protagonismo inicial foi fundamental para que, ao longo do tempo, o espaço evoluísse de uma unidade produtiva para um importante centro de geração e difusão de conhecimento científico. Nesse sentido, Oliveira aponta que, com a integração ao Biológico, a área assumiu uma nova aptidão, agora voltada ao interesse coletivo. “A Fazenda foi transformada em uma estação de pesquisa científica, ampliando a atuação institucional do Instituto para além do ambiente estritamente laboratorial e estabelecendo a área como um espaço dedicado a estudos aplicados à agropecuária e à sanidade vegetal”, discorre o pesquisador.


Antiga cocheira e área atual com novos usos.
Fonte: Acervo do Instituto Biológico – SP. Crédito da primeira imagem: B. U. Mazza, 1939. Segunda imagem, 2026.
“A instalação de uma unidade do IB em Campinas contribuiu de forma significativa para o desenvolvimento local, sobretudo ao consolidar o município como um polo de pesquisa em sanidade agropecuária”, relata Erika. Ela acredita que, ao lado do Instituto Agronômico (IAC-APTA), fundado 50 anos antes por Dom Pedro II, a presença do IB na cidade foi fundamental para a geração de conhecimento aplicado, a formação de recursos humanos qualificados e o apoio direto aos produtores, fortalecendo a agricultura regional e promovendo inovação no campo.
A doutoranda agrega ainda que, com parte da área tendo sido destinada à implementação do Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, em 1987, a Fazenda passou também a ser um espaço público de lazer, cultura e preservação ambiental, amplamente frequentado pela população campineira.
Excelência que impulsiona a agricultura
No momento em que completa seus 220 anos – e quase nove décadas sob tutela do IB – a Fazenda Mato Dentro serve de base para alguns dos mais inovadores laboratórios do agro nacional e de transformadoras pesquisas científicas voltadas principalmente aos cuidados com as plantas e à proteção das lavouras. “A área abriga laboratórios de referência nacional e internacional nas áreas de fitopatologia, entomologia econômica, nematologia, bacteriologia vegetal, controle biológico e ciência das plantas daninhas”, elenca Oliveira.
Algumas conquistas, dentre as inúmeras que tiveram participação da equipe de pesquisa do DAPSA, incluem a recente identificação de um novo gênero de nematoide, a expansão no uso de fungos entomopatogênicos e outras ferramentas de controle biológico nas plantações brasileiras e marcante atuação dos diversos laboratórios em sanidade vegetal. Além de promover o avanço da ciência, todos esses feitos vêm possibilitando que a agricultura paulista e nacional enfrente os desafios que se apresentam e se adapte às novas tendências produtivas, com foco na promoção da sustentabilidade agroambiental. Acompanhando o avanço da ciência agrícola, o IB segue investindo e modernizando as estruturas do local, sem contudo esquecer do valor do patrimônio histórico. “Recentemente um dos edifícios originais da Fazenda, anteriormente usado como estábulo, foi amplamente restaurado e adaptado para sediar um Laboratório de Bioprocessos, concebido como uma vitrine tecnológica de agentes de controle biológico desenvolvidos a partir de pesquisas conduzidas na própria instituição”, ressalta o pesquisador.
De acordo com Oliveira, a preservação do patrimônio cultural permanece como uma preocupação do Instituto, que desenvolve iniciativas voltadas à manutenção e à adaptação desses espaços históricos às atividades de pesquisa científica. “A celebração dos 100 anos do Instituto Biológico, no ano que vem, constitui uma oportunidade singular para refletir sobre o legado científico e patrimonial da instituição”, defende o pesquisador. Para ele, a manutenção do nome “Fazenda Mato Dentro” é mais do que uma mera referência. “É a afirmação de um marco de memória institucional e de continuidade histórica, ao mesmo tempo em que evidencia o papel da ciência na promoção da agricultura sustentável e na preservação do meio ambiente.”
Por Gustavo Steffen de Almeida
Comunicação APTA
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