Dia do Médico Veterinário: profissional atuando na extensão rural é sinônimo de sanidade na produção de alimentos de origem animal, saúde humana e sustentabilidade ambiental
Celebrado no dia 9 de setembro, data coincide com a assinatura, em 1933, do Decreto Lei n.º 23.133, que regulariza a profissão e o ensino da Medicina Veterinária no Brasil. Atualmente, a Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CATI/CDRS), órgão responsável pela extensão rural na Secretaria de Agricultura e Abastecimento, conta com 76 desses profissionais em seu quadro, dos quais 18 são mulheres.
No dicionário, a definição encontrada para médico(a) veterinário(a) é “médico(a) especialista que faz diagnóstico e tratamento de doenças em animais”. Mas no dia a dia da extensão rural paulista, o termo que faz referência à atividade cujas raízes remontam, segundo relatos históricos, a 3.500 a.C, ganha muitos outros sentidos e contornos, se concretizando em ações, projetos e programas que geram renda, emprego, sustentabilidade e segurança alimentar, tanto no meio rural como no urbano.
“Com uma atuação ampla, em consonância com os demais profissionais da instituição na difusão de conhecimento e tecnologia, os extensionistas que possuem formação em Medicina Veterinária têm apoiado os produtores não apenas em detectar e tratar problemas em bovinos, bubalinos, suínos e/ou avícolas, mas atuando de forma integral no fortalecimento da gestão nas propriedades e nas organizações rurais, visando ao aprimoramento e à potencialização da produção e comercialização de alimentos de origem animal com qualidade, bem como à manutenção do bem-estar dos animais e ao desenvolvimento sustentável do agronegócio, com base no tripé social, econômico e ambiental”, avalia Alexandre Manzoni Grassi, coordenador da CATI/CDRS.
Grassi ressalta ainda que, em várias décadas de atuação, eles têm sido um grande diferencial na estrutura de atuação da instituição. “Seja trabalhando em projetos e ações de alcance estadual, ou nas Regionais e Casas da Agricultura, os profissionais da Medicina Veterinária da nossa rede têm realizado ações exemplares, sempre mantendo um relacionamento próximo com os produtores, o que permite a difusão de conhecimento e tecnologia, de acordo com a realidade e as demandas locais e regionais”, avalia o coordenador da CATI/CDRS, acrescentando que um dos fatores que amplia a eficiência do trabalho desses extensionistas é a convergência de ações com os que atuam nas áreas de pesquisa e Defesa Agropecuária da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, bem como com entidades parceiras, o poder público municipal e a sociedade civil organizada.
Entre as ações que contaram e contam com o trabalho de médicos veterinários na extensão rural, enfocando apenas as áreas de pecuária de leite e corte, destacam-se a atuação em ações que possibilitaram o desenvolvimento dessas atividades como cadeias produtivas no Estado, em áreas de sanidade animal; exposições para disseminar tecnologias de melhoramento genético, as quais mudaram não apenas o plantel paulista, mas toda a concepção de cadeia; geração e divulgação de conhecimento e tecnologia; capacitações; execução do Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira (PDPL), do Projeto CATI Leite e do Plano Mais Leite, Mais Renda, entre outros.
Homenageando os médicos(as) veterinários(as) da CATI/CDRS, contamos a seguir um pouco da história de Cláudio Camacho Pereira Menezes, que atua na Regional de Fernandópolis e se define como um carioca de nascimento, mas um paulista do interior de coração.

Quando a formação profissional encontra a realização pessoal
“O extensionista rural – seja médico veterinário, engenheiro agrônomo, zootecnista ou profissional com outra formação – precisa ter claro que, antes de trabalhar com animais e/ou plantas, trabalha com pessoas que têm sonhos, desejos e uma bagagem de conhecimento e história que não podem nunca ser colocados de lado. E nesse contexto extensionista, de transformar o conhecimento científico gerado nos centros de pesquisa e universidades e convertê-lo em mensagens que sejam do entendimento do produtor, levando em conta o seu ‘saber’, fazendo adequações necessárias a cada situação, enxergo que o médico(a) veterinário(a) é um profissional de ‘saúde única’, pois trabalha com a saúde dos animais, das pessoas e do meio ambiente”.
Com esse pensamento, Cláudio Camacho, 46 anos, como é conhecido pelos colegas, concretizou o sonho de se tornar extensionista, ao ingressar na Secretaria de Agricultura e Abastecimento, por meio do concurso da CATI/CDRS, realizado em 2006, para o qual havia dado os primeiros passos muito anos antes. “Minha relação com a área rural vem desde a infância e adolescência, quando passava férias no sítio da família do meu pai, localizado na cidade de Rio das Flores (RJ), acompanhando o meu tio-avô na lida com o gado de leite, mas também no manejo com outros animais, como porcos e galinhas. Sendo assim, com apoio do meu pai, que também era um apaixonado por bichos, fui construindo o sonho de me tornar médico veterinário”, conta Cláudio, informando que a formatura em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) aconteceu em 1998 e, no ano seguinte, iniciou o mestrado em Clínica Médica Veterinária, pela Universidade Estadual paulista (Unesp), campus de Jaboticabal (SP).
Ao concluir o mestrado, em 2001, e com a certeza de que sua vida profissional seria efetivada no Estado de São Paulo, iniciou a busca por um emprego no interior, que se tornou realidade na Prefeitura Municipal de Turmalina, cidade que pertence à área de atuação da CATI/CDRS Regional Fernandópolis. “Tive a sorte de ser alocado para atuar como conveniado na Casa da Agricultura. A partir daí, conheci o universo maravilhoso da extensão rural, fui acolhido pelos produtores e pela ‘família CATI’, o que minimizou a saudade da família que ficou toda no Rio de Janeiro. Mesmo não sendo servidor do quadro, o diretor da Regional na época (Luiz Carlos Pagotto) investiu na minha capacitação (cujo ápice e divisor de águas foi o curso de Educação Continuada em Epidemiologia Básica e Especial em Doenças Infecciosas, Parasitárias e Zoonoses, ministrado por uma grande especialista do país, prof. Dra. Masaio Mizuno), o que me possibilitou trabalhar lado a lado com extensionistas que me inspiraram a concretizar o sonho de me tornar de fato ‘catiano’, apesar de que sempre que alguém me perguntava onde eu trabalhava, eu dizia sempre que era na CATI”, relembra Cláudio, que se tornou legalmente “catiano” com a aprovação no concurso, em 2006, e chamada para atuar, em 2008; com a colocação alcançada, pôde escolher continuar trabalhando na Regional de Fernandópolis.
Sobre o trabalho diário como médico veterinário, atuando na extensão rural, Cláudio cita as diversas atribuições da profissão, mas vai além. “Entre as funções cotidianas, orientamos os produtores e criadores sobre sanidade, alimentação, reprodução, manejo, instalações e implantação de Boas Práticas de bem-estar animal, executando ações que possibilitem produtividade e sanidade na produção de alimentos de origem animal. Olhando de forma geral para essas ações, muitos podem dizer que os veterinários atuam apenas em prol da saúde animal, mas é fato que, ao orientarmos na prevenção e no controle de doenças, muitas das quais são perigosas zoonoses (doenças transmitidas dos animais para os seres humanos e vice-versa), tais como brucelose e tuberculose, atuamos também em prol da saúde humana. Falando com enfoque direto na bovinocultura leiteira (uma grande cadeia produtiva de São Paulo), quando orientamos os produtores a respeitar o período de carência e descartarem o leite contaminado com antibióticos e outros medicamentos, melhoramos a qualidade do leite a ser consumido pelas pessoas e, consequentemente, a saúde humana. Quando difundimos conhecimento e incentivamos práticas sustentáveis, como a formação de piquetes de pastejo rotacionado e alimentação volumosa para o período de estiagem, promovemos a retirada de animais de pastejo em áreas lindeiras, beiras de córregos e matas, nosso trabalho contribui para conservação do solo e recuperação de áreas degradadas, bem como de áreas de vegetação natural presente em algumas propriedades, portanto, também atuamos pela saúde do meio ambiente”.
Em 20 anos (sete como conveniado e 13 como efetivo) atuando como médico veterinário na extensão rural da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, Cláudio diz que os aprendizados têm sido constantes e as experiências marcantes. Uma em especial, ele cita como exemplo da relação que os extensionistas da CATI mantêm com os produtores rurais, com o objetivo de torná-los protagonistas de suas histórias.
“Ao assumir a chefia da Casa da Agricultura de Estrela d’Oeste (2009 a 2016), conheci um agricultor familiar, Paulo Ravagnani, que trabalha com leite, hortaliças e frutas. Após inseri-lo em nosso Projeto CATI Leite, em 2013, e incentivá-lo a adotar as práticas recomendadas, o que o levou a ter um conhecimento sobre alimentação e sanidade do rebanho, analisamos juntos e entendemos que era hora de fazer o melhoramento genético do rebanho, formado por vacas mestiças com baixa produção de leite. Demos início então a um projeto de separação de novilhas para inseminação artificial com sêmen sexado para o nascimento de bezerras que se tornariam futuras matrizes. No começo das ações, eu fazia as inseminações, mas ia transferindo o conhecimento e a tecnologia para ele e seus irmãos, que também trabalham na propriedade. Conforme as bezerras foram nascendo, junto nasceu também a esperança de dias melhores, com maior produção e renda. Em 2015, fui convidado a assumir um cargo na Regional de Fernandópolis e saí da Casa da Agricultura. Ao comunicar o fato ao Paulo (momento em que já haviam nascido 40 novilhas como resultado de nosso projeto), e dizer que pela distância seria impossível continuar a fazer as inseminações, ele me desejou sorte e disse que estava tudo bem. Fiquei triste por essa interrupção no projeto, mas, ao mesmo tempo, satisfeito pelo conquistado até o momento”, lembra Cláudio.
Em 2016, ao voltar à cidade, em férias, o veterinário foi visitar o produtor de quem se tornou se tornou amigo e teve uma grande surpresa, pois ele havia concluído um curso avançado de inseminação artificial. “Atualmente, ele obtém altos índices de prenhez, se tornando um dos melhores inseminadores que conheço. Tem um rebanho com bom nível genético, tendo alguns animais com produção próxima de 30 litros (a produção anterior não chegava a sete litros). Fiquei muito feliz em saber que tudo isso é fruto de um trabalho iniciado de forma pequena na Casa da Agricultura, mas que gerou renda e qualidade de vida para toda uma família e incentivo para outras. Hoje, com respaldo da CATI Regional Fernandópolis, faço acompanhamento reprodutivo com auxílio de ultrassom para muitos pequenos produtores na região”.

Um pouco de história e atuação de médicos(as) veterinários(as)
Como dissemos, de acordo com relatos históricos, os primeiros registros da Medicina Veterinária remetem ao ano de 3.500 a.C, quando egípcios e chineses buscavam curas naturais para seus animais domésticos. Mas, três mil anos depois, os gregos fizeram as primeiras pesquisas e os primeiros experimentos com bichos. Mas foi apenas no século XVI, após a invenção do microscópio, que cientistas passaram a olhar com mais atenção os micro-organismos que causavam doenças em homens e animais. Surgiram assim novas possibilidades para carreira veterinária.
A cidade francesa de Lyon foi a primeira a receber uma escola especializada em Medicina Veterinária, em 1762. Posteriormente, Londres também inaugurou uma faculdade, que tratava especialmente animais domésticos e cavalos. No Brasil, o curso surgiu depois da fundação da Faculdade de Medicina (1815) e ganhou investimentos, após o Imperador D. Pedro II visitar escolas de veterinária na França.
Na atualidade, diversas instituições de ensino públicas e particulares oferecem o curso que, tal como a Medicina, também ganhou desafios com a criação de vacinas e modernização de equipamentos. No Brasil, a profissão é regulamentada pela Lei n.º 5.517/1968 e permite a atuação em cerca de 80 áreas, em diversos ramos da Medicina e saúde pública. Nesse contexto, no momento atual, em que o mundo vive um período de pandemia, a importância desses profissionais pode ser ainda mais percebida com o trabalho nas áreas de relacionadas à segurança dos alimentos, controle de zoonoses (doenças que transmitidas aos seres humanos pelos animais e vice-versa), meio ambiente e a proliferação de vírus.

Cleusa Pinheiro – Jornalista do Centro de Comunicação Rural (CATI/CDRS/SAA) – cleusa.pinheiro@sp.gov.br