Projeto sediado no Ital e na Unicamp, em Campinas-SP, envolve 91 profissionais de onze instituições
O Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, anunciou nesta terça-feira (3) os 18 temas prioritários do Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Soluções Inovadoras para o Desenvolvimento Sustentável da Cadeia Produtiva do Cacau em SP (Cacau 360°). O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp), será liderado pelo Ital e executado em parceria com outras dez instituições brasileiras de pesquisa e extensão, nos próximos cinco anos.
Com sede no Ital e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o CCD Cacau 360° tem como missão fomentar o cultivo de cacau, a produção de chocolate e o desenvolvimento de ingredientes inovadores em SP com foco em produtividade, qualidade e aproveitamento integral do fruto.
Para ampliar a produtividade da cacauicultura paulista, a Plataforma I – Sistemas produtivos de cacau em áreas não tradicionais terá como prioridades a comparação de sistemas agroflorestais (SAFs) com sistemas a pleno sol, incluindo sistemas de irrigação, controle biológico de pragas, mecanização e uso de inteligência artificial. Inicialmente estão envolvidos 26 profissionais, sob coordenação do pesquisador Charleston Gonçalves, do Instituto Agronômico (IAC-APTA), e do docente Anderson Ferreira da Cunha, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Quanto à qualidade do cacau produzido, a Plataforma II – Desenvolvimento de sistemas fermentativos priorizará a avaliação da influência genética, influência edafoclimática e de safra, sistemas de fermentação natural e induzida, isolamento de micro-organismos e uso como “startes” e protocolos de fermentação. Para conduzir esses trabalhos, estão previstos 20 profissionais sob coordenação da docente Priscilla Efraim, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.
A sustentabilidade será foco da Plataforma III – Bioprocessos para o aproveitamento integral do cacau pós-colheita, também liderada pela Unicamp através da docente Gabriela Alves Macedo. A equipe a princípio composta por 19 profissionais terá como prioridades pesquisar processos biotecnológicos (fermentativos e enzimáticos), obtenção de novos ingredientes e novos materiais para embalagem a partir de resíduos e coprodutos, e estudos de funcionalidade de ingredientes com testes pré-clínicos.
Os aspectos de saúde serão abordados pela Plataforma IV – Produtos alimentícios contendo compostos bioativos e funcionais, coordenada pela pesquisadora Gisele Camargo, diretora de Programação de Pesquisa e vice-coordenadora do Ital, além de gestora executiva do Cacau 360°. Serão 26 profissionais dedicados ao desenvolvimento de novos alimentos com viés de funcionalidade e saudabilidade, com estudos de estabilidade e vida útil dos produtos e avaliação da bioacessibilidade.
Por fim, a Plataforma V – Métricas de gestão de risco para controle de contaminantes químicos, sob coordenação do pesquisador Marcelo Morgano, vice-diretor do Centro de Ciência e Qualidade de Alimentos (CCQA) do Ital, terá como prioridade a avaliação toxicológica do cacau e de produtos derivados. Com nove profissionais previstos para a equipe, o foco será contaminantes orgânicos e inorgânicos, abrangendo micotoxinas, bactérias patogênicas, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), metais pesados e acrilamida.
“É um projeto que congrega o ideal da Secretaria de Agricultura de SP, que é juntar as competências para fazer algo melhor para a sociedade, para a economia, para nosso estado e para o Brasil”, ressaltou a coordenadora do Ital, Eloísa Garcia, durante encontro on-line que oficializou o início do CCD Cacau 360°. “Eu me sinto bastante honrado em coordenar um projeto tão estratégico e dessa magnitude ao lado de pessoas e lideranças tão qualificadas”, frisou o pesquisador responsável pelo projeto e do Centro de Tecnologia de Cereais e Chocolate (Cereal Chocotec) do Ital, Valdecir Luccas, lembrando que mais 32 bolsistas devem ser agregados à equipe.
“O essencial é a união dos esforços, dos saberes, dos conhecimentos, para trazer uma nova oportunidade para nossos agricultores e para nossos consumidores – a população paulista e até do mundo – de terem acesso a produtos de cacau de qualidade com ciência, com compromisso e, o mais importante, com todo nosso amor envolvido nesse projeto”, destacou Ricardo Pereira, diretor da Diretoria de Assistência Técnica Integral (Cati), que coordena o Cacau SP, programa da Secretaria de Agricultura que inspirou o Cacau 360°.
Sobre o Cacau 360°
O Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Soluções Inovadoras para o Desenvolvimento Sustentável da Cadeia Produtiva do Cacau em São Paulo (Cacau 360°) reúne 91 profissionais de pesquisa e extensão para fomentar o cultivo de cacau, a produção de chocolate e o desenvolvimento de ingredientes inovadores no estado com foco em produtividade, qualidade e aproveitamento integral do fruto. Aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp), tem como sede o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado, e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que atuam em parceria com nove instituições e duas empresas e contam com oito apoiadores.
Também representam a Secretaria no projeto o Instituto Agronômico (IAC-APTA), o Instituto Biológico (IB-APTA), a Apta Regional e a Diretoria de Assistência Técnica Integral (Cati). Completam as parcerias a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a BioinFood, startup sediada no Ital, a Gencau e a Harald.
Apoiam o Cacau 360° a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag), o FoodTech Hub Latam, a Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia, a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), a Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos (Abiam), a Associação para o Desenvolvimento da Indústria de Produção de Alimentos (Adipa), a Associação Comercial e Empresarial de São José do Rio Preto (Acirp) e a Prefeitura Municipal de Campinas.
Confraternização reuniu educadores, aprendizes e representantes dos povos indígenas Tukano em uma tarde marcada por troca de conhecimentos, respeito à diversidade e valorização da agroecologia
O encerramento das atividades de 2025 do Projeto Fazendinha Feliz – unidade de Educação Ambiental reconhecida pela Prefeitura Municipal de Campinas -, realizado no último dia 15 de dezembro, na CATI, foi marcado por muito mais do que uma confraternização. O encontro reuniu cerca de 30 integrantes da Rede “Escola na Horta”, que se reúnem no âmbito do Projeto, em uma tarde de diálogo intercultural, reflexão e aprendizado, com a participação especial de representantes de povos indígenas das etnias Tukano e Dessana, do estado do Amazonas, atualmente acadêmicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Durante a roda de conversa, os convidados indígenas compartilharam aspectos de sua cultura, língua nativa, modos de vida, hábitos e costumes, além de relatarem as dificuldadesenfrentadas ao viver longe de suas aldeias para buscar formação acadêmica em Campinas. Os depoimentos, especialmente do casal Marinaldo Almeida Costa e Marilda Dias de Souza, emocionaram os participantes e ampliaram o entendimento sobre a importância da preservação cultural e do respeito à diversidade. “Os indígenas trouxeram seu artesanato e os participantes puderam adquirir artigos para presentear as pessoas, nesse encontro que contou também com a presença do médico da Prefeitura de Campinas, Paulo Abati, que é apoiador dos povos indígenas na Unicamp e membro da ONG Expedicionários da Saúde, que leva assistência à saúde até aldeias longínquas do norte do Brasil. E também é grande parceiro do Projeto Fazendinha Feliz”, explica Osmar Mosca Diz, extensionista da CATI e coordenador do Projeto Fazendinha Feliz, destacando também a presença de outra parceira do Projeto, Adriana Tiba, estudiosa das abelhas do Brasil.




Segundo Osmar, a presença dos povos indígenas na instituição tem um significado profundo. “É muito importante nos unirmos e somarmos forças com nossos irmãos indígenas, que precisam do nosso respeito e apoio. A presença deles aqui reforça a resistência diante de tantas dificuldades e a reafirmação de sua identidade e cultura”, destacou.
Essa foi a segunda visita dos indígenas à CATI. A primeira ocorreu durante a celebração do Dia Nacional da Abelha e da Agroecologia, realizado nos dias 2 e 3 de outubro, quando participaram da abertura oficial do evento, além de atuarem como feirantes e expositores, fortalecendo a integração entre saberes tradicionais e técnicos.
A Rede “Escola na Horta”, formada por educadores e aprendizes, tem como princípio comum conhecer, respeitar e apoiar diferentes formas de relação com a terra. Para Osmar, a visão indígena oferece ensinamentos essenciais para o desenvolvimento rural sustentável. “A relação que os povos indígenas estabelecem com a terra e com os bens naturais, considerados sagrados e dons de Deus, é um exemplo para todos nós. Trata-se de uma relação de respeito, reverência e conservação”, afirmou.
Do ponto de vista técnico, o encontro reforçou que muitos dos princípios da agricultura conservacionista, da Agroecologia e dos sistemas agroflorestais têm origem no conhecimento tradicional indígena, inspirado em uma relação integrada com a natureza, “muito antes de esses conceitos serem sistematizados pela ciência moderna”, avalia Osmar, enfatizando que “o encerramento das atividades de 2025 do Projeto Fazendinha Feliz reafirma o compromisso da CATI com a educação, a sustentabilidade, a valorização dos saberes tradicionais e o diálogo intercultural, mostrando que o futuro da agricultura passa, necessariamente, pelo respeito às raízes e à diversidade de conhecimentos que constroem o campo brasileiro”. Na oportunidade, também houve plantio de mudas nativas no Parque da CATI.
População indígena em Campinas
Segundo dados do Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), a população indígena de Campinas cresceu 50% em 12 anos, passando de 1.043 pessoas, em 2010, para 1.568. Além do crescimento, o levantamento revela que Campinas conta com 96 etnias e 26 línguas indígenas diferentes.
Uma visita técnica ao meliponário do Projeto Fazendinha Feliz, da Coordenadoria de Assistência Técnica integral (CATI), se transformou em uma parceria transnacional, unindo a Colômbia e o Brasil, por meio do trabalho de extensão rural realizado pela CATI no desenvolvimento sustentável da meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão) no Estado de São Paulo.
Em um intercâmbio organizado no âmbito de projetos e parceria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidad Nacional da Colombia, professores e pesquisadores das duas universidades realizam visitas técnicas às principais ações e aos principais projetos realizados em cada país para o desenvolvimento da meliponicultura.
“A visita dos pesquisadores da Colômbia, acompanhados do Prof. Roberto Greco, da Unicamp, foi uma honra e uma oportunidade para apresentarmos um pouco do trabalho realizado pela rede de extensionistas da CATI junto aos produtores rurais e na área da meliponicultura. Eles mostraram grande interesse no Parque das Abelhas (meliponário) e no espaço da Fazendinha Feliz, onde acontecem as atividades de educação ambiental com professores e alunos, e local onde puderam visitar a nossa horta de PANC – Plantas Alimentícias não Convencionais”, salienta o engenheiro agrônomo do Departamento de Extensão Rural (Dextru)/CATI, Osmar Mosca Diz, responsável pelo Projeto Fazendinha Feliz e pelo Meliponário, ressaltando que um dos visitantes colombianos, o Prof. Rodulfo Ospina, é um importante pesquisador de abelhas nativas no país, desenvolvendo, junto à Universidad Nacional, inúmeros trabalhos de estudo, pesquisa e educação em relação às abelhas. “O Prof. Ospina mostrou grande interesse no trabalho de assistência técnica e extensão rural da CATI, realizado junto aos projetos de meliponicultura e apicultura no estado, por um grupo técnico muito dedicado”.

Acompanhando o grupo, como responsável por esse projeto de intercâmbio na Unicamp, o Prof. Roberto Greco, do Instituto de Geociências da Unicamp, no Departamento de Políticas Científicas e Tecnológicas, relatou a importância da visita técnica à CATI. “Eu conheci o trabalho da CATI junto aos meliponicultores e apicultores, quando, há dois anos, participei do Seminário do Dia da Abelha, organizado pelo engenheiro agrônomo Osmar Diz. Ali, soube da importância e do grande trabalho realizado pela equipe de técnicos da CATI em todo o estado, tanto na parte de assistência técnica aos criadores quanto no incentivo à preservação das abelhas, principalmente das espécies nativas. Por isso, ao idealizarmos esta visita técnica de 15 dias, com o objetivo de promover um intercâmbio de conhecimento e trocas de experiências − visando ao desenvolvimento da meliponicultura, incluindo informações sobre polinização, comercialização de produtos das abelhas, legislação, bem como ações de educação ambiental −, agendamos esta visita pelo fato de a CATI ter muito a contribuir nesse segmento, com seu excelente trabalho de anos”.

Vivenciando o contato com as abelhas sem ferrão no meliponário, o Prof. Ospina (coordenador do Laboratório de Abelhas da Universidad Nacional) se encantou com espécies nativas como mandaçaia e jataí, que não existem na Colômbia, e falou sobre a experiência. “Podemos dizer que o trabalho com as abelhas na Colômbia tem uma estreita ligação com o Brasil, pois foi por meio dos livros, estudos e pesquisas do professor Nogueira Neto que iniciamos trabalhos, pesquisas e projetos na Universidad”, comenta o professor.
Sobre a visita à CATI, o Prof. Ospina relata que teve excelente impressão do trabalho de extensão rural. “Essa nos mostrou a importância do trabalho de assistência técnica para o pleno desenvolvimento da meliponicultura e também da apicultura, de forma ampla e sustentável. Na Colômbia, ainda estamos com poucos projetos e ações em temas como identificação de espécies, comercialização, produção, legislação e controle sanitário. Mas, com certeza, essa parceria que nasceu com este intercâmbio com a Unicamp, que nos proporcionou uma imersão em tantas entidades, como a CATI, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade de São Paulo (USP), bem como a troca de experiências com meliponicultores, se tornará ainda mais estreita”.

Osmar Mosca Diz, engenheiro agrônomo do Dextru/CATI; Rodulfo Ospina, Prof. da Universidad Nacional da Colombia; Roberto Greco, Prof. do Instituto de Geociências da Unicamp; Alejandra Cano, doutoranda da Universidade da Califórnia em Davis (atua com abelhas nativas nos trópicos e aldeias indígenas na Colômbia); Patricia Jaime, pesquisadora da Universidad Nacional da Colombia.