Publicação disponível no site CATI tem como público-alvo moradores de comunidades tradicionais e agricultores familiares paulistas
Foi lançado nesta quarta-feira (24) um e-book gratuito que visa facilitar o acesso de comunidades tradicionais e agricultores familiares às principais políticas públicas voltadas à valorização da sociobiodiversidade paulista. Fruto de uma parceria entre a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) e a Universidade de São Paulo (USP), a publicação foi desenvolvida no âmbito de um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que possui duração de 36 meses e teve início em 5 de junho de 2024.

Denominada “Manual de acesso às políticas públicas para a sociobiodiversidade no Estado de São Paulo”, a obra foi lançada em auditório da USP, na Capital. Representando a SAA, estiveram presentes o chefe de Divisão da Casa da Agricultura de São Paulo, Lucas Volpato, e o técnico da Coordenadoria de Regularização Ambiental Rural (CRAR), Guaraci Belo de Oliveira. Pelo lado da universidade, compuseram a mesa a pró-reitora de Pesquisa e Inovação, Maria Helena Palucci Marziale; o pró-reitor adjunto de Cultura e Extensão Universitária, Iran José Oliveira da Silva; o assessor da Superintendência de Gestão Ambiental (SGA), Eduardo Tomasevicius Filho; a professora e beneficiária do projeto financiado pela Fapesp, Fernanda Brando; e, de modo on-line, a superintendente de Gestão Ambiental, Patrícia Iglecias, responsável pelo Termo de Cooperação Técnica Científica entre a USP e a SAA que viabilizou a criação do e-book.
A cerimônia foi conduzida por Fernanda, autora do projeto de pesquisa “As cadeias de valor da sociobiodiversidade da flora do Estado de São Paulo como instrumento para a transformação socioambiental”, que foi contemplado pelo edital “Transformação 2023 – promovendo transições para sustentabilidade”, do Programa Biota. Segundo ela, que também escreveu o manual, ele funciona como um guia de orientação, onde o leitor encontra informações sobre quem pode acessar cada política pública, quais são os requisitos necessários, quais instituições são responsáveis por sua execução e onde buscar atendimento ou esclarecimentos. Ainda de acordo com a pesquisadora, os autores tinham como objetivo transformar informações frequentemente dispersas em um instrumento de consulta simples e útil para quem vive e trabalha nos territórios rurais.
Nesse sentido, a Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI) teve papel determinante, pois ela é a porta de entrada para as políticas públicas na área rural do estado. Durante sua fala, Volpato lembrou que as Casas da Agricultura estão em quase todos os municípios paulistas e possuem técnicos capacitados para atender o produtor rural e para auxiliá-lo no acesso a essas políticas. “Assim que for impressa, a publicação pode ser compartilhada por nossos extensionistas rurais em comunidades sem acesso à internet, em especial, com indígenas, quilombolas, moradores de territórios extrativistas e agricultores familiares”, destacou a bióloga da CATI Regional Mogi das Cruzes, Andrea Mayumi Chin Sendoda, que é coautora do manual.
Antes desse guia, a SGA da USP atuou em conjunto com a CATI para lançar o Documento Técnico 133 – Guia da aptidão agrícola para o reúso da água em regiões hidrográficas. “Nosso trabalho prova que a união da Academia com o Estado pode resultar em boas obras para a sociedade”, ressaltou Fernanda.
Para acessar o Manual de acesso às políticas públicas para a sociobiodiversidade, clique aqui

A extensionista Kenia Barbosa, da Casa da Agricultura de Ubatuba – ligada à CATI Regional Santos -, participou da organização e execução da capacitação “Oficina de Beneficiamento Artesanal e Elaboração de Receitas com Araruta” (Maranta arundinacea), realizada na Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (Apta) de Pindamonhangaba, em parceria com a nutricionista Neide Rigo e a engenheira agrônoma Cristina Castro.
O evento reuniu cerca de 40 participantes e teve como foco o cultivo, o processamento e o uso alimentar da espécie nativa brasileira. “A araruta desapareceu das prateleiras e receitas, perdendo espaço para o polvilho da mandioca, de mais fácil processamento e maior rendimento, mas possui características únicas, altamente apreciadas na confeitaria fina, como a neutralidade do sabor e a textura única que empresta aos pratos. É, ainda, tradicionalmente cultivada por comunidades rurais e indígenas, valorizada por seu polvilho fino e altamente digestivo, além de representar uma alternativa sustentável e culturalmente significativa para os sistemas alimentares locais”, explica Kenia.
Programação
Durante a capacitação, os participantes receberam orientações sobre o plantio da araruta em Sistemas Agroflorestais (SAFs), com explicações conduzidas pelos engenheiros agrônomos Cristina Castro e Antônio Devide. Foi discutido como a espécie pode ser integrada a consórcios agroflorestais, contribuindo para a diversificação produtiva, o sombreamento do solo e a recuperação de áreas degradadas. A nutricionista Neide Rigo apresentou técnicas de processamento artesanal da araruta, demonstrando o passo a passo da extração do polvilho na cozinha, de forma simples e acessível. Além disso, foram preparados diversos pratos utilizando o polvilho, como biscoitos, bolos, cremes e abordadas outras possibilidades culinárias, como mingaus e sobremesas diversas.

A extensionista Kenia Barbosa ministrou palestra sobre a importância da sociobiodiversidade para o meio ambiente, a cultura e a alimentação, destacando o papel da araruta como alimento identitário e símbolo do resgate da cultura alimentar brasileira. “O cultivo e o consumo da araruta fortalecem a segurança alimentar, o manejo sustentável e a valorização dos saberes tradicionais em áreas rurais e urbanas”, salientou.

Ao longo da atividade, foram discutidos os aspectos nutricionais da espécie, que apresenta excelente digestibilidade e pode ser uma opção inclusiva na alimentação de pessoas com restrições alimentares. Também abordou-se o aproveitamento integral da planta: o bagaço da araruta pode ser utilizado como enchimento para travesseiros e casacos, ou mesmo como bucha artesanal, substituindo a bucha vegetal tradicional e contribuindo para o uso integral e sustentável dos recursos naturais.

Durante o encontro, também foram apresentadas aos participantes duas outras espécies produtoras de polvilho e de fácil cultivo: araruta-ovo-de-pata (Myrosma cannifolia), que pode ser consumida sem processamento, apenas cozida como batata; e o ararutão (Canna edulis). “Enquanto esta última pode ser uma importante fonte alternativa de produção de amido, com maior rendimento que a araruta-verdadeira, a ovo-de-pata pode ser considerada uma importante alternativa para a diversificação da produção de tubérculos, contribuindo para o incremento da renda na agricultura familiar e para a resiliência de sistemas produtivos regenerativos em tempos de mudanças climáticas. A araruta-ovo-de-pata é saborosa, pouco fibrosa e apresenta um gosto suave, semelhante ao da batata, com boa aceitação e palatabilidade. Seu cultivo pode contribuir para ampliar a oferta de alimentos locais, podendo inclusive ser incorporada à merenda escolar e à alimentação cotidiana da população, fortalecendo circuitos curtos de produção e consumo baseados na sociobiodiversidade”, finalizou Kenia.

O 1.º Encontro da Rede de Bioeconomia da Sociobiodiversidade do Estado de São Paulo reuniu cerca de 100 pessoas, no Parque Estadual de Intervales, de 14 a 16 de abril passado
O encontro foi organizado pela Universidade de São Paulo (USP) – Campus Ribeirão Preto, Fundação Florestal e Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA), com apoio de diversas instituições parceiras e financiamento do Projeto Biota/Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
As atividades são parte do projeto de pesquisa “Biota Transformação – as cadeias de valor da sociobiodiversidade da flora do Estado São Paulo como instrumento para transformação socioambiental” e do Acordo de Cooperação Técnica e Científica da USP com a SAA. O objetivo é mapear as cadeias de valor para a sociobiodiversidade da Mata Atlântica paulista e propor soluções e políticas públicas para fortalecê-las, bem como às populações beneficiárias como os agricultores familiares, indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Foram prospectadas mais de 50 cadeias produtivas existentes nos segmentos de plantas alimentícias, medicinais e ornamentais e com uso para restauração ecológica, artesanato e produção agroecológica. Parte destas cadeias já são tema de trabalho da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), da SAA, por meio do Grupo de Trabalho de Sociobiodiversidade e Exploração de Espécies Nativas, com destaque para o cambuci, a juçara e araucária, plantas nativas fundamentais para conservação da biodiversidade e geração de renda para pessoas que vivem da floresta.
Também houve espaço para feira de produtos da sociobiodiversidade, apresentações culturais dos indígenas guaranis e degustação de produtos.

Crédito das imagens: grupo (USP Ribeirão Preto) e oficina (Márcia Cristina de Moraes)
(Com informações de Maíra Formis de Oliveira – Especialista Ambiental – Casa da Agricultura de Ubatuba)