No litoral norte paulista, a terra voltou a respirar melhor junto com a história de um povo. No Quilombo da Caçandoca, em Ubatuba, práticas ancestrais de cultivo estão sendo retomadas, aliando sustentabilidade ambiental, segurança alimentar e geração de renda. Neste processo, a Casa da Agricultura de Ubatuba, ligada à CATI Regional Santos, tem desempenhado um papel essencial ao oferecer assessoria técnica e apoio institucional à comunidade.
“Como extensionistas, temos apoiado esta comunidade quilombola no manejo da vegetação nativa, na implantação de roças tradicionais e de sistemas agroflorestais (SAFs), pois, com uma visão integrada da agricultura, é possível trabalhar diversos aspectos da sustentabilidade para essas comunidades, bem como gerar renda de forma coerente com o uso do território e da vegetação nativa, muito presente nesta área”, explica Maíra Formis, especialista ambiental da Casa da Agricultura de Ubatuba.



E todas as ações técnicas têm sido desenvolvidas em parceria e com base em uma iniciativa que reúne diferentes frentes que se fortalecem mutuamente. De um lado, o projeto “Sementes Quilombolas”, idealizado pela própria comunidade e pela Associação dos Remanescentes da Comunidade do Quilombo da Caçandoca; de outro, o projeto “Plantando Agrofloresta”, executado pela organização não governamental (ONG) – Instituto de Projetos e Pesquisas Socioambientais (Ipesa) e financiado pelo Comitê de Bacias do Litoral Norte. Juntos, eles viabilizaram a implantação de 1,5 hectare de sistemas agroflorestais integrados às tradicionais roças quilombolas.



Mais do que plantar alimentos, os projetos cultivam cultura, identidade e futuro. “As agroflorestas priorizam espécies nativas frutíferas, que impulsionam a culinária local e fortalecem o Turismo de Base Comunitária. Nos SAFs implementados pela comunidade, um dos destaques é a palmeira juçara (Euterpe edulis), espécie ameaçada de extinção, cuja polpa pode ser extraída e aproveitada de forma sustentável, gerando renda e contribuindo para a conservação da Mata Atlântica”, comenta Maíra.

Para o sucesso das ações, ela ressalta que as crianças também estão envolvidas, tanto por meio da alimentação e do resgate da cultura como pela merenda escolar adquirida diretamente dos quilombolas, via Projeto Catrapovos, de forma integrada a programas institucionais de Compras Públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que poderá incluir a polpa de juçara. “Esse círculo virtuoso conecta alimentação saudável para as crianças, geração de renda para os agricultores, educação e valorização cultural”.
As crianças e jovens, aliás, são o coração do projeto. Participam ativamente das hortas escolares e vivenciam o aprendizado que ultrapassa os muros da escola. A orientação técnica conta com o apoio do técnico agrícola José Carlos dos Santos, da CATI, especialista em produção orgânica, que deu as diretrizes para o início das atividades da horta escolar e tem trabalhado com a comunidade há alguns anos, prestando apoio para a construção de estufas e hortas orgânicas.
Para os moradores, o impacto vai além do campo produtivo, sendo também uma reconexão com o território e com a própria história. “Alcançar as crianças e os jovens é a finalidade principal de todo o trabalho realizado. Passamos a história e a cultura do quilombo para eles, para não deixar morrer”, afirma emocionado o quilombola Marcílio Gaspar, observando a área – antigamente utilizada para a roçada da família – ganhar nova vida com a implantação de uma agrofloresta.

Dona Maria, uma das matriarcas da comunidade, reforça o valor simbólico desse movimento: “O processo de reconhecimento do quilombo foi sofrido, e a luta pelo território continua. Voltar a trabalhar na terra com as pessoas queridas e ver os jovens retornando é plantar nossas raízes para os nossos netos”.
A atuação da CATI vai além do suporte técnico agrícola. Segundo Maíra, o trabalho exige sensibilidade e respeito ao conhecimento tradicional. “A maior preocupação é que os projetos sejam implantados considerando as áreas ancestralmente utilizadas como roçados, resgatando o uso agrícola e a cultura associada a esses espaços. Fazemos um trabalho minucioso de identificação das árvores existentes – muitas delas com potencial para agricultura que gere renda – e diferenciamos áreas de vegetação nativa daquelas historicamente manejadas, tanto em campo quanto nos mapas do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Além disso, a articulação institucional promovida pela CATI com órgãos ambientais e fundiários é fundamental para garantir segurança às comunidades, evitando a criminalização de práticas tradicionais de manejo”.
Essa integração entre saber técnico e saber tradicional é o que torna o projeto um exemplo de desenvolvimento sustentável na prática. Em Caçandoca, a agrofloresta não é apenas um modelo produtivo, é um caminho de resistência, autonomia e cuidado com o meio ambiente, pois, ao cultivar a terra, a comunidade cultiva também o futuro, com raízes firmes na ancestralidade e olhos voltados para as próximas gerações.
Conheça mais um pouco do trabalho realizado nos projetos com a comunidade: https://www.instagram.com/reel/DQK234kEeKF/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==
Foto da capa: Maíra Formis
Fotos desta matéria: Ramon Soares dos Santos
Em uma ação de orientação técnica realizada em parceria com a Colônia de Pescadores Z10 “Ministro Fernando Costa”, a Casa da Agricultura de Ubatuba – ligada à CATI Regional Santos – promoveu, no dia 26 de março, um encontro estratégico para esclarecer dúvidas sobre a obrigatoriedade da Nota Fiscal do Produtor Eletrônica (NF-e) que, desde janeiro, foi estendida aos pescadores artesanais profissionais, em uma medida que impactou diretamente a rotina da categoria. A iniciativa reafirma o papel da CATI como órgão responsável pelas ações de assistência técnica e extensão rural na Secretaria de Agricultura e Abastecimento e agente de prestação de serviço público voltado à regularização e ao fortalecimento das atividades produtivas no campo e no mar.
Cerca de 40 pescadores e pescadoras participaram da roda de conversa, que, segundo Maíra Formis, especialista ambiental da Casa da Agricultura de Ubatuba, teve caráter técnico, com explicações detalhadas sobre cadastro, emissão e uso correto da nota fiscal eletrônica, agora obrigatória também para pescadores profissionais artesanais desde 5 de janeiro de 2026.
“A nota fiscal é uma novidade e traz custos, por isso nós precisamos de informação para entender melhor. Mas sabemos também que, sem a documentação correta, nós podemos perder o produto na fiscalização e, como o pescado é perecível, isso significa um grande prejuízo, pois ele precisa ser vendido fresco”, avaliou um dos diretores da Colônia, Rosildo de Paula.
A capacitação foi conduzida pelo contador João Batista Bueno de Aguiar, que apresentou o passo a passo para adesão ao sistema, além de esclarecer pontos críticos levantados pelos participantes, como exigências fiscais, tipos de embarcação, licenciamento, declaração de espécies e integração com meios de pagamento.
As dúvidas evidenciaram o impacto prático da nova legislação no cotidiano da pesca artesanal, especialmente diante da necessidade de adaptação tecnológica e dos custos envolvidos. Ainda assim, a regularização foi destacada como essencial para garantir segurança jurídica e evitar prejuízos, sobretudo em um setor marcado pela comercialização de produtos altamente perecíveis.
Durante o evento, o médico-veterinário Carlos Kawatani, responsável pela Casa da Agricultura de Ubatuba, destacou o caráter público e orientador da iniciativa: “Nosso papel, enquanto CATI, é estar ao lado do produtor e do pescador neste momento de transição, oferecendo informação qualificada e apoio técnico para que ninguém fique para trás diante das novas exigências legais.”
Esta ação em Ubatuba evidencia como a assistência técnica pública vai além da produção, atuando também na inclusão fiscal e na sustentabilidade econômica não apenas das comunidades rurais do interior de São Paulo, mas também da área litorânea.


Sobre a obrigatoriedade da NF-e
A obrigatoriedade da NF-e decorre do Ajuste Sinief 27/2024, da Secretaria da Fazenda e Planejamento (Sefaz), que substituiu a antiga Nota Fiscal – modelo 4 pelos formatos eletrônicos.
Como alternativa prática, a Sefaz indica o uso do aplicativo Nota Fiscal Fácil, que permite a emissão digital por produtores rurais, microempreendedores individuais (MEIs) e transportadores autônomos de carga (TACs), ampliando o acesso à formalização.
Nota Fiscal Fácil – NFF (https://www.defesa.agricultura.sp.gov.br/noticias/2026/gestao-normativa-da-secretaria-da-fazenda-torna-obrigatorio-o-uso-da-nota-fiscal-eletronica-pelo-produtor-rural,2383.html.
Para saber mais sobre sobre a Nota Fiscal Fácil, acesse: https://portal.fazenda.sp.gov.br/servicos/nff.
A extensionista Kenia Barbosa, da Casa da Agricultura de Ubatuba – ligada à CATI Regional Santos -, participou da organização e execução da capacitação “Oficina de Beneficiamento Artesanal e Elaboração de Receitas com Araruta” (Maranta arundinacea), realizada na Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (Apta) de Pindamonhangaba, em parceria com a nutricionista Neide Rigo e a engenheira agrônoma Cristina Castro.
O evento reuniu cerca de 40 participantes e teve como foco o cultivo, o processamento e o uso alimentar da espécie nativa brasileira. “A araruta desapareceu das prateleiras e receitas, perdendo espaço para o polvilho da mandioca, de mais fácil processamento e maior rendimento, mas possui características únicas, altamente apreciadas na confeitaria fina, como a neutralidade do sabor e a textura única que empresta aos pratos. É, ainda, tradicionalmente cultivada por comunidades rurais e indígenas, valorizada por seu polvilho fino e altamente digestivo, além de representar uma alternativa sustentável e culturalmente significativa para os sistemas alimentares locais”, explica Kenia.
Programação
Durante a capacitação, os participantes receberam orientações sobre o plantio da araruta em Sistemas Agroflorestais (SAFs), com explicações conduzidas pelos engenheiros agrônomos Cristina Castro e Antônio Devide. Foi discutido como a espécie pode ser integrada a consórcios agroflorestais, contribuindo para a diversificação produtiva, o sombreamento do solo e a recuperação de áreas degradadas. A nutricionista Neide Rigo apresentou técnicas de processamento artesanal da araruta, demonstrando o passo a passo da extração do polvilho na cozinha, de forma simples e acessível. Além disso, foram preparados diversos pratos utilizando o polvilho, como biscoitos, bolos, cremes e abordadas outras possibilidades culinárias, como mingaus e sobremesas diversas.

A extensionista Kenia Barbosa ministrou palestra sobre a importância da sociobiodiversidade para o meio ambiente, a cultura e a alimentação, destacando o papel da araruta como alimento identitário e símbolo do resgate da cultura alimentar brasileira. “O cultivo e o consumo da araruta fortalecem a segurança alimentar, o manejo sustentável e a valorização dos saberes tradicionais em áreas rurais e urbanas”, salientou.

Ao longo da atividade, foram discutidos os aspectos nutricionais da espécie, que apresenta excelente digestibilidade e pode ser uma opção inclusiva na alimentação de pessoas com restrições alimentares. Também abordou-se o aproveitamento integral da planta: o bagaço da araruta pode ser utilizado como enchimento para travesseiros e casacos, ou mesmo como bucha artesanal, substituindo a bucha vegetal tradicional e contribuindo para o uso integral e sustentável dos recursos naturais.

Durante o encontro, também foram apresentadas aos participantes duas outras espécies produtoras de polvilho e de fácil cultivo: araruta-ovo-de-pata (Myrosma cannifolia), que pode ser consumida sem processamento, apenas cozida como batata; e o ararutão (Canna edulis). “Enquanto esta última pode ser uma importante fonte alternativa de produção de amido, com maior rendimento que a araruta-verdadeira, a ovo-de-pata pode ser considerada uma importante alternativa para a diversificação da produção de tubérculos, contribuindo para o incremento da renda na agricultura familiar e para a resiliência de sistemas produtivos regenerativos em tempos de mudanças climáticas. A araruta-ovo-de-pata é saborosa, pouco fibrosa e apresenta um gosto suave, semelhante ao da batata, com boa aceitação e palatabilidade. Seu cultivo pode contribuir para ampliar a oferta de alimentos locais, podendo inclusive ser incorporada à merenda escolar e à alimentação cotidiana da população, fortalecendo circuitos curtos de produção e consumo baseados na sociobiodiversidade”, finalizou Kenia.

Agricultora caiçara recebeu extensionistas rurais da CATI para avaliação de sua área de produção
No Sertão do Ubatumirim, em meio à Mata Atlântica, uma visita técnica à área de produção de agricultora caiçara transformou-se em encontro de saberes, resgatando uma forma de cultivo ancestral. A atividade, realizada no dia primeiro de outubro pelos extensionistas Kenia Barbosa e Carlos Kawatani, da Casa da Agricultura de Ubatuba, pertencente à CATI Regional Santos, teve como objetivo avaliar a possibilidade de implantação de uma roça tradicional, prática amparada pela Resolução das Roças e pela Resolução do Manejo de Nativas do Estado de São Paulo.

As roças tradicionais são fundamentais, não apenas para a subsistência das famílias, mas também para o abastecimento de alimentos locais, incluindo a comercialização em feiras e o fornecimento para programas como a merenda escolar. Nessas áreas, são cultivados alimentos essenciais como mandioca, cará, cará-roxo, inhame, batata-doce, milho e feijão, entre outros, garantindo segurança alimentar e fortalecendo a economia comunitária.

A visita também reforçou a importância da continuidade dessas práticas em harmonia com o meio ambiente, uma vez que a roça tradicional segue diretrizes que visam à conservação da Mata Atlântica. No caso da área avaliada, trata-se de um espaço no interior de um território de alta biodiversidade, muito bem preservado, onde a agricultura é praticada de forma a manter o equilíbrio com o ecossistema.

Além da avaliação da roça tradicional, a equipe também visitou outra área da mesma produtora, onde há o interesse em implantar um Sistema Agroflorestal (SAF). A proposta é enriquecer e manejar o espaço de forma sustentável, combinando espécies nativas que surgem naturalmente com o plantio e a renovação de culturas já existentes. O projeto de SAF conta com um consórcio de espécies frutíferas exóticas e nativas, como juçara, laranja, limão, cacau, cupuaçu, cambuci e outras frutas da Mata Atlântica. O SAF biodiverso e complexo, nesse contexto, representa uma forma de diversificar a produção, fortalecer a geração de renda e conservar o território, mostrando-se uma estratégia complementar à roça tradicional e igualmente alinhada à valorização do modo de vida caiçara.
(Com informações da CATI Regional Santos)
O 1.º Encontro da Rede de Bioeconomia da Sociobiodiversidade do Estado de São Paulo reuniu cerca de 100 pessoas, no Parque Estadual de Intervales, de 14 a 16 de abril passado
O encontro foi organizado pela Universidade de São Paulo (USP) – Campus Ribeirão Preto, Fundação Florestal e Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA), com apoio de diversas instituições parceiras e financiamento do Projeto Biota/Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
As atividades são parte do projeto de pesquisa “Biota Transformação – as cadeias de valor da sociobiodiversidade da flora do Estado São Paulo como instrumento para transformação socioambiental” e do Acordo de Cooperação Técnica e Científica da USP com a SAA. O objetivo é mapear as cadeias de valor para a sociobiodiversidade da Mata Atlântica paulista e propor soluções e políticas públicas para fortalecê-las, bem como às populações beneficiárias como os agricultores familiares, indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Foram prospectadas mais de 50 cadeias produtivas existentes nos segmentos de plantas alimentícias, medicinais e ornamentais e com uso para restauração ecológica, artesanato e produção agroecológica. Parte destas cadeias já são tema de trabalho da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), da SAA, por meio do Grupo de Trabalho de Sociobiodiversidade e Exploração de Espécies Nativas, com destaque para o cambuci, a juçara e araucária, plantas nativas fundamentais para conservação da biodiversidade e geração de renda para pessoas que vivem da floresta.
Também houve espaço para feira de produtos da sociobiodiversidade, apresentações culturais dos indígenas guaranis e degustação de produtos.

Crédito das imagens: grupo (USP Ribeirão Preto) e oficina (Márcia Cristina de Moraes)
(Com informações de Maíra Formis de Oliveira – Especialista Ambiental – Casa da Agricultura de Ubatuba)