Exposição “Ana Maria Primavesi: sementes e frutos da agroecologia” inaugura acervo da engenheira agrônoma na Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho”, da Unicamp
Primeira mulher a ter acervo na Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho” (Bora), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ana Maria Primavesi foi pioneira da agroecologia

O café que tomava apenas aos domingos, na fazenda em Itaí, interior de São Paulo, ela havia plantado. Gostava de moê-lo na hora, no moedor preto de madeira que havia trazido de sua terra natal, a Áustria. Respeitava o tempo da semente e as características do solo no café que bebia. Escreveu contos que versavam sobre a natureza e pintou, em aquarela, recortes de solo para seu amor, o marido, Artur, com quem compartilhava da paixão pela terra.
Sua máquina de escrever antiga conta que dentes-de-leão crescem em solo fértil, no papel amarelado pelo tempo. Os livros e fotografias contam as influências daquela que, uma década atrás, recebeu o principal prêmio mundial da agricultura orgânica, o One World Award, e para quem o solo era um organismo vivo.
Detalhes como esses, que revelam um pouco do encantamento de Ana Maria Primavesi, uma das precursoras da agroecologia no Brasil, podem ser vistos e sentidos na exposição de seu acervo, na Biblioteca de Obras Raras “Fausto Castilho” (Bora), da Unicamp, em Campinas (SP).
Falecida há cerca de dois anos, Ana Maria é a primeira mulher a ser homenageada com uma biblioteca na Bora, entre grandes nomes como o do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, e o de Maurício Knobel, psiquiatra. A inauguração da exposição, no dia primeiro de abril, teve a presença de amigos e familiares de Ana Maria.

Livros, originais, fotografias, peças de mobiliário e vestuário e outros itens que pertenceram a ela estão expostos de 4 de abril até 8 de julho deste ano. A visitação é autoguiada e aberta ao público, gratuita, de segundas a sextas-feiras, das 9h às 17h. Visitas guiadas podem ser feitas mediante agendamento, pelo e-mail bora@unicamp.br. A Bora fica à Rua Sérgio Buarque de Holanda, 421, Cidade Universitária, Campinas (SP).
Pioneira na agroecologia e na agricultura orgânica
As palavras da engenheira agrônoma, pesquisadora, professora e produtora, Ana Maria Primavesi, ecoam como um mantra que deve ser seguido por todos que atuam no meio rural e resumem o seu legado de cerca de 80 anos dedicados à ciência e vivência prática no campo: “O solo é vida. Tudo começa e termina nele”.
Considerada a “mestra maior da agroecologia” – como bem a definiu a engenheira agrônoma Escolástica Ramos de Freitas, que, por muitos anos, atuou na Divisão de Extensão Rural da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) –, a dra. Ana Primavesi, como era conhecida, faleceu no dia 5 de janeiro de 2020, aos 99 anos.

“Para a CATI, que tem o desenvolvimento sustentável como base de sua atuação, os ensinamentos e as experiências da dra. Ana Primavesi foram enriquecedores para o trabalho da extensão rural paulista. Para nós, foi uma honra ter contado com a sua presença e parceria em diversos eventos, como o Encontro de Agroecologia, realizado em Campinas, em 2003; a 9.ª Semana de Agricultura Orgânica, realizada em Campinas, em 2010; bem como ações e capacitações. Reconhecemos que o seu legado permanece vivo e atual, e deve ser perpetuado por aqueles que absorveram seus conhecimentos e práticas de campo, entre os quais estão diversos extensionistas e pesquisadores da Secretaria de Agricultura e Abastecimento”, comenta Alexandre Manzoni Grassi, coordenador da CATI.
História
Nascida na Áustria, em 1920, mas naturalizada brasileira, Annemarie Baronesa Conrad (seu nome de solteira), desde pequena, apaixonou-se pela natureza, inspirada pelo pai. “Entrou para a faculdade de Agronomia, mesmo Hitler tentando fazer com que as ‘cabeças pensantes’ desistissem de estudar. Ela não só era uma das raras mulheres na faculdade, como também aquela que se destacou por seu talento natural em compreender o invisível: a vida microscópica contida nos solos” – Trecho da biografia escrita por Virgínia Knabenn.

Ana Primavesi veio para o Brasil, em 1949, onde começou a atuar como professora na Universidade Federal de Santa Maria, e ao lado do marido, o prof. dr. Artur Primavesi, também agrônomo, implementou o primeiro curso nacional de pós-graduação com enfoque no manejo ecológico do solo.
Desde o início da vida profissional, a agrônoma estabeleceu uma metodologia própria de trabalho, sendo guiada pelos sinais que o solo oferece. De acordo com ela, os métodos de cultivo da terra, em 1945, eram mais avançados se comparados aos dos dias atuais. Em entrevista à Revista Casa da Agricultura – Produção Orgânica, publicação da Secretaria de Agricultura, de 2013, salientou que, com a prática cotidiana, o produtor tem condições de analisar o solo e identificar as necessidades da planta, fazendo principalmente a observação das raízes. Ela também fez um alerta durante essa entrevista: “As pessoas têm liberdade de ter filhos, mas se esquecem que eles precisam de terra e alimentos para viver. As cidades não são melhores ou piores que o campo. É preciso entender que um depende do outro”.
Com uma vasta lista de cursos, palestras e publicações, sua contribuição à expansão dos princípios orgânicos é reconhecida nacional e internacionalmente. Em 2012, recebeu o One World Award, principal prêmio mundial da agricultura orgânica. Questionada sobre o valor da premiação, ela respondeu, na época, à equipe da Secretaria de Agricultura, com um sorriso e muita modéstia: “Eles que quiseram me dar!”. Na sequência da conversa, dra. Ana mostrou um cocar que ganhou de um cacique indígena, durante um evento realizado na Bahia, em 2012, em um gesto de reconhecimento pelo trabalho dela, que teve reflexos na melhoria da qualidade de vida das famílias e do solo local. Ficou claro, naquela ocasião, que para a dra. Ana receber prêmios era bom, mas ver vidas transformadas e solos tidos como mortos renascerem, era o que mais importava.

Esse conceito, dra. Ana aplicou na sua vida de produtora, ao transformar a fazenda adquirida há mais de 30 anos, em Itaí, no interior de São Paulo, de uma área degradada, em um local verdejante e de muita produtividade. “O que tem que ir para os livros são os conhecimentos apreendidos na prática diária do campo e não o contrário”, avaliou sabiamente.
Legado
Ao longo de sua carreira como pesquisadora, Ana Primavesi publicou mais de 90 artigos científicos no Brasil e em revistas internacionais. Além disso, escreveu 11 livros e colaborou em inúmeras outras publicações.
Seu trabalho de maior influência é o livro “Manejo Ecológico do Solo”, que revolucionou a agricultura ecológica tropical na América Latina. O livro postula que um solo saudável é o pré-requisito para plantas saudáveis, as quais, por sua vez, vão contribuir para a saúde dos homens. No livro é destacada a importância de restabelecer o equilíbrio entre o solo, os organismos do solo, as plantas, os animais e os seres humanos. Além disso, a proteção da estrutura dos pequenos agricultores, assim como o seu destino e sua cultura, estiveram sempre entre suas grandes preocupações.

Ministrou mais de 500 palestras e cursos em universidades, institutos e congressos, e inspirou seu público ao redor do mundo. Além disso, foi cofundadora de várias organizações, como a Associação de Agricultura Orgânica (AAO) e o Movimiento Agroecológico Latinoamericano (Maela). Fonte: AAO