Secretaria de
Agricultura e Abastecimento
Diretoria de Assistência Técnica Integral - CATI

Diversidade no campo: técnicos e produtores dividem suas vivências

Diversidade no campo: técnicos e produtores dividem suas vivências

Diversidade no campo: técnicos e produtores dividem suas vivências

Junho é celebrado como o mês da inclusão e da diversidade sexual e de gênero. Neste mês, buscamos pessoas do campo para compartilharem suas histórias de vida e de combate ao preconceito 

 

A curiosidade infantil pelos animais levou Guilherme Gonsales, na vida adulta, a ser zootecnista. Paulistano crescido em Pinheiros e na Vila Madalena, era no sítio da família, em Botucatu, que, ainda menino, já manifestava interesse pela criação de animais. 

Em 2006, aprovado em concurso público para o quadro da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, Guilherme, formado, passou a trabalhar, como servidor, com cooperativismo e associativismo, sempre atraído pelo assunto da economia solidária. Após alguns anos de trabalho e de experiência adquirida, em 2019, o zootecnista foi transferido para a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), onde atua até hoje, na extensão rural pesqueira, com comunidades tradicionais caiçaras e pescadores artesanais.

 

Técnico acredita no respeito às diferenças 

Assistente agropecuário e chefe da Casa da Agricultura de São Sebastião, Guilherme conta que, com o acompanhamento frequente, no dia a dia dos produtores e pescadores do litoral paulista, é natural que conversem sobre temas que vão além da prática profissional e versam sobre vida, relacionamentos e família. Nestes momentos, no entanto, Guilherme conta que nunca sentiu preconceito por ser homossexual. “Demorei um tempo para assumir minha sexualidade, o que aconteceu aos 30 anos, quando trabalhava em Bragança Paulista. Mas não conversava sobre isso. Em Santos, na Casa da Agricultura, pelos amigos que ali fiz, me senti mais à vontade para falar sobre o assunto. Fui conseguindo assumir para mim e também para outros a minha orientação sexual”, conta. “O universo do agricultor, do pescador, é um universo bastante conservador quanto aos costumes. Isso me causava certo desconforto. Hoje, com a maturidade que nós ganhamos com o tempo, me sinto muito mais seguro”, completa. 

Para Guilherme, é importante combater preconceitos, reformular conceitos e seguir em busca da conquista por direitos e por respeito. “Nunca me senti discriminado; institucionalmente, nunca sofri preconceito. Fui sempre acolhido pelos colegas”, afirma, relatando alguns constrangimentos pontuais, como “brincadeiras” homofóbicas em ambientes predominantemente masculinos.  “O constrangimento ainda é uma realidade”, diz. “Perguntam se sou casado. Falo que não sou, estou solteiro e não tenho filhos, e sou homossexual”, explica, e enfatiza que, ao falar abertamente, acredita também estar construindo um caminho de respeito às diferenças e de convívio pacífico e harmônico entre as pessoas.

 

 

 

Preconceito, inclusão e direitos 

Pouco menos de duas décadas atrás, em 2005, o diretor Ang Lee trazia uma polêmica película aos cinemas de todo o mundo. O filme norte-americano “O Segredo de Brokeback Mountain” escancarava temas tabus: do relacionamento romântico e sexual entre caubóis até as trágicas consequências do preconceito. O filme, bem-recebido pelo público e pela crítica ocidental, retratava o relacionamento de dois vaqueiros, na década de 1960 até os idos de 1980 – um relacionamento conturbado e truncado pelas normativas da época.  

Desde então, um bom tempo passou e a abordagem sobre a diversidade sexual e de gênero tem encontrado novas plataformas de difusão, como as digitais. E, hoje, a diversidade no ambiente rural também encontra reverberação em fenômenos culturais e musicais, como o “pocnejo”. Mistura da gíria para gay “poc”, usada no universo LGBTQIA+, com “sertanejo”, um dos ritmos mais tradicionais do Brasil, o “pocnejo” é uma vertente musical surgida com o trabalho do artista Gabeu. Filho do cantor sertanejo Solimões, que compõe dupla com o cantor Rionegro, Gabriel Felizardo, nome de batismo, chamou a atenção do cenário artístico com seu single “Amor Rural”. Se, na letra carregada de bom-humor da composição, a pergunta “por quanto tempo mais vamos amar no escuro?” constrói uma semântica que leva o ouvinte direto ao tema do preconceito, cabe frisar que uma das linhas de combate a ele reside, precisamente, na luta pela garantia da inclusão em direitos. 

Em 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu, como entidade familiar, por unanimidade, a união estável entre casais do mesmo sexo. Em 2013, por meio da Resolução 175 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o casamento homoafetivo passou a ser considerado válido no Brasil. E, em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela criminalização da homofobia e da transfobia, enquadradas, a partir desse momento, pela Lei de Racismo.  

“Nosso papel, enquanto órgão de assistência técnica e extensão rural (Ater), é o de estar ao lado do produtor rural e ao lado dos agricultores familiares, com suas diversas formações familiares e formas de ser. Temos 56 anos de história e, nessas mais de cinco décadas, não foi apenas a tecnologia no campo que evoluiu. Saber que as pessoas no campo também podem manifestar sua identidade e orientação de gênero de forma mais livre é bom para quem trabalha para construir uma sociedade melhor”, diz Francisco Martins, coordenador da CATI. 

 

Diálogo é essencial 

Vindo de um núcleo familiar muito religioso, Eidrian Diones dos Santos não conhecia ninguém assumidamente gay e, num contexto de homofobia e desprezo por pessoas gays, lésbicas e transgêneros, entendia a homossexualidade como algo terrível. A percepção de ser gay foi carregada de muita angústia e negação, até a chegada à universidade. 

Ali, cursando Agronomia e próximo do movimento estudantil, teve mais contato com a diversidade e com o diferente. Conheceu a agroecologia, a agricultura familiar, os movimentos sociais do campo, onde, neste último, se falava sobre gênero e sexualidade. “Esse ambiente inclusivo fez sentido pra mim. Ali, eu percebi que existia outro mundo; que ser gay não era algo abominável. E, na faculdade de Agronomia, existiam gays, lésbicas, pessoas trans, que estavam lutando por seus direitos”, recorda. 

Por ser o primeiro em sua família a conquistar nível superior, os caminhos profissionais foram sendo descobertos na trajetória. Eidrian encontrou no trabalho como agente de extensão rural uma junção do que o fazia sentir bem. “Estar no mato, acampar, trabalhar além do escritório”, conta. “Quando estudamos Agroecologia, vemos que a riqueza na natureza vem da diversidade. Gosto de fazer um paralelo com a sexualidade, pela visão da inclusão”, diz. 

Foi trabalhar com certificação de orgânicos, até a entrada para o quadro da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, em 2022, via concurso. Saiu de Curitiba, no Paraná, onde vivia, para encarar essa nova missão. “De certa forma, eu me sentia à vontade em Curitiba, que tem um cenário LGBT marcante. E eu estava indo para uma cidade pequena, para atuar com agricultores, na zona rural. Vim com bastante receio, de opressão, homofobia e resistência. Confesso que fui muito surpreendido positivamente pelos meus colegas. Desde o primeiro momento, me acolheram, me ofereceram amizade, literalmente me receberam em suas casas, naquele momento complicado de mudar de cidade, de emprego, de deixar a família”, relata o servidor. 

Já na CATI Regional Registro, como chefe da Casa da Agricultura de Iguape, Eidrian entende que, apesar de ser bastante diferente de sua equipe, existe uma relação baseada no respeito e, para ele, a posição do assistente agropecuário da CATI é um lugar de respeito. O engenheiro agrônomo se questiona, no entanto, se jovens gays, no campo, têm tanta aceitação quanto ele. “Gosto de me ver como um agente de transformação. Minha presença por si só já incomoda. Gera um questionamento, e eu gosto de mostrar para as pessoas que o diferente pode somar”, afirma. “Muitas das coisas que a gente vivia antes, já não cabem hoje”, completa. 

 

 

 

Por uma agricultura sustentável

Juntas há 30 anos, as agricultoras Vânia Maria dos Santos e Valéria Maria Macoratti pretendem casar-se oficialmente − e dizer o grande “sim” − agora em 2023. As duas vêm de famílias campesinas, mas que já viviam na cidade quando ambas nasceram, empurradas para fora do meio rural pelos grandes latifúndios. “Na minha infância, em nossa casa, tinha de tudo num terreno minúsculo!”, lembra Valéria.  

Já com Vânia, ao chegarem a Parelheiros, zona sul de São Paulo, capital, fizeram amizade com os agricultores da região e participaram de cursos de agricultura orgânica e biodinâmica. “Fomos para o campo após a morte da minha mãe. Para preencher o vazio, adotamos um cachorrinho de rua que despertou um amor muito grande pelos animais. Adotamos 15! Resolvemos comprar uma chácara na região de Parelheiros, para continuar em São Paulo, isso em 2007. Conhecemos os agricultores da região, fizemos amizade”, conta, lembrando-se de como foram bem recebidas pela comunidade. 

Na chácara Nossa Fazenda, em que trabalham com agricultura orgânica e agroecológica familiar, além de mais animais acolhidos ao longo dos anos, elas recebem visitantes. A propriedade faz parte da Associação Acolhida São Paulo e do projeto de agroturismo “Acolhendo em Parelheiros”.  

Quem passa por lá pode se deliciar com quitutes da culinária vegetariana e vegana, feitos por Vânia, que é cozinheira profissional. Entre os pratos diferentes, está a caponata de coração de banana − sim, porque até as bananeiras têm coração. Ao criarem um lar acolhedor, de coração aberto aos que querem conhecer a agroecologia, a história de amor das duas se completa com o amor pela terra e pela natureza.

 

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