“A forma como o mundo tem protegido seus oceanos e territórios costeiros precisa mudar e essa mudança passa por ouvir quem vive nesses espaços”. Com essa proposta, pesquisadores, extensionistas e comunidades tradicionais se reuniram, no último dia 6 de março, no Câmpus Litoral Paulista, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), para discutir os impactos sociais das chamadas áreas marinhas protegidas e os desafios de conciliar conservação ambiental com justiça territorial.
Promovida pelo Laboratório de Planejamento Ambiental e Gerenciamento Costeiro (Laplan), em parceria com a CATI Regional Santos e o Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, a palestra “Áreas Marinhas Protegidas e Colonização Verde” foi coordenada pelo professor Dr. Davis Gruber Sansolo, do Laplan, e contou com a participação do professor francês Dr. Jean-Eudes Beuret, especialista internacional em governança territorial e cooperação internacional. Realizado no Salão Nobre do Instituto de Biociências da Unesp, em São Vicente, o evento contou com 25 participantes presencialmente e foi acompanhado por 90 pessoas durante a transmissão ao vivo pelo canal da universidade no YouTube (https://www.youtube.com/@unesp.saovicente/streams), onde a palestra se encontra disponível para acesso remoto.
Segundo o extensionista Newton José Rodrigues da Silva, da CATI Regional Santos, que atuou na parceria para viabilizar a presença do professor Beuret, essa atividade reforçou a integração entre universidade, poder público e organizações da sociedade civil na busca por soluções mais justas para a gestão ambiental.
“Eventos como esse ajudam a trazer novas perspectivas para o nosso trabalho de extensão rural e pesqueira. Ao compreender melhor os impactos das políticas de conservação sobre os territórios, conseguimos desenvolver projetos mais inclusivos, que valorizem os modos de vida locais e fortaleçam a sustentabilidade econômica e ambiental das comunidades”, afirma, destacando que o professor convidado, Jean-Eudes Beuret, possui ampla trajetória acadêmica e internacional e contribuiu muito com o debate e indicações de ações possíveis para os territórios no litoral. “Desde 1997, ele atua como docente e pesquisador no L’Linstitut Agro Rennes, instituição francesa, onde foi meu orientador no meu doutorado, acumulando experiência na coordenação de projetos de cooperação na América Latina e na África, tendo atuado também como especialista junto à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Com este currículo, aliado à sua experiência humanitária, é uma importante voz no cenário para orientação da extensão rural desenvolvida no tripé da sustentabilidade, trazendo os agricultores e as comunidades para o centro do debate sobre produção e conservação ambiental”.
A respeito da parceria com a universidade, Hemerson Calgaro, extensionista da CATI Regional Santos, destaca: “A parceria é estratégica para fortalecer os projetos desenvolvidos junto às comunidades da região. E a presença da CATI nesse debate é fundamental porque trabalhamos diretamente com produtores rurais, pescadores artesanais e comunidades tradicionais, incluindo povos indígenas e quilombolas. Discutir modelos de conservação nas Áreas de Preservação, Reservas e Parques Estaduais, que respeitem essas populações, é essencial para garantir políticas públicas mais equilibradas e eficazes”, salienta, enfatizando que reflexões como as apresentadas na palestra contribuem para ampliar o diálogo entre ciência, gestão pública e conhecimento tradicional.
Durante a palestra, o professor Beuret trouxe para a mesa de debates o fato de que há um modelo de proteção ambiental aplicado globalmente que parte de uma concepção universal de conservação que nem sempre considera as especificidades culturais e sociais dos territórios. Esta afirmação se baseia em estudo que realizou, entre 2017 e 2019, em 13 áreas marinhas protegidas de cinco continentes, que pode ser acessado em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0308597X25002684).




Sobre este ponto, o extensionista Newton Rodrigues ressaltou: “A ausência desse olhar pode gerar conflitos com comunidades locais, sobretudo quando seus conhecimentos e formas próprias de relação com a natureza são ignorados”. Segundo os organizadores, nesse sentido, a proposta do evento foi justamente ampliar esse debate, buscando caminhos para políticas ambientais que conciliem preservação da biodiversidade com respeito aos povos e comunidades que historicamente cuidam desses territórios. E, segundo os participantes, cumpriu o objetivo com louvor!