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Sistema de Plantio Direto de Hortaliças protege o solo e promove redução do uso de água

Sistema de Plantio Direto de Hortaliças protege o solo e promove redução do uso de água


Engenheiro agrônomo da CATI Regional Avaré, Sérgio Augusto Martins Faria explica como o SPDH contribui para a conservação do solo, a redução de insumos e a melhoria das condições de trabalho no campo

Evitar o revolvimento do solo, manter uma camada de palha sobre a área cultivada e alternar culturas comerciais com plantas de cobertura são alguns dos princípios do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH). Desenvolvido há mais de 30 anos a partir da interação entre pesquisa, extensão rural e produtores, o sistema busca promover mudanças na forma de produzir, com benefícios ambientais, econômicos e também para o trabalho realizado no campo.

Apesar de levar “hortaliças” no nome, o SPDH pode ser aplicado a diferentes cadeias produtivas, incluindo fruticultura e produção de grãos. Entre os resultados apontados pelo engenheiro agrônomo Sérgio Augusto Martins Faria estão a redução do uso de água e de agrotóxicos, além da melhoria gradual das condições físicas e biológicas do solo.

Em entrevista à CATI, Faria explica os princípios do sistema, como fazer sua implantação, quais plantas de cobertura podem ser utilizadas e quais desafios o produtor pode encontrar durante a transição. Ele também relata experiências acompanhadas na região de Avaré, inclusive em sistemas de produção orgânica.

CATI — Como surgiu o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças?

Sérgio Augusto Martins Faria — Surgiu há mais de 30 anos e foi concebido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), junto com a extensão rural, pesquisadores e produtores rurais.

Na época, os produtores enfrentavam problemas de endividamento e não sabiam como pagar as dívidas. A questão foi resolvida por meio de negociação, mas houve um consenso de que também era necessário mudar o sistema de produção.

O SPDH surgiu, então, com dois eixos. Um é político-pedagógico, que propõe a autonomia do produtor e produtos mais saudáveis. O outro é técnico-científico, que propõe que o produtor não revolva mais o solo.

CATI — Por que o não revolvimento do solo é um dos princípios do sistema?

Sérgio Augusto Martins Faria — O SPDH é um sistema de plantio direto que evita o revolvimento do solo, trazendo benefícios já conhecidos pela agronomia, como maior agregação, melhor infiltração de água e aumento da porosidade.

As práticas de revolvimento do solo surgiram quando importamos tecnologias dos países de clima temperado, onde o solo ficava congelado no inverno e havia necessidade de revolvê-lo para aquecimento e mineralização da matéria orgânica.

Nos trópicos, o revolvimento do solo é bastante complicado por causa do aumento da erosão, compactação e outros problemas. Por isso, a agricultura em regiões tropicais deve ser feita de uma forma em que o plantio seja direto, sem revolvimento, utilizando plantas de cobertura para proteger o solo das intempéries, principalmente nesses momentos de emergência climática.

CATI — Como o produtor pode começar a implantação do sistema?

Sérgio Augusto Martins Faria — Inicialmente, o produtor deve fazer a análise do solo e receber a recomendação sobre a necessidade de calagem, fosfatagem e outras medidas para resolver quimicamente os problemas do solo, com revolvimento e incorporação, se necessário.

Também é preciso avaliar o perfil do solo, identificar camadas compactadas e corrigir sua estrutura física. Depois disso, é feito o plantio de uma planta de cobertura, ou planta regenerativa da biodiversidade. Pode ser uma aveia no inverno, um painço ou milheto no verão, ou algum mix de plantas.

Quando a planta de cobertura chega geralmente ao ponto de florescimento ou grão leitoso, ela é acamada. Isso pode ser feito com herbicida ou com equipamentos como a rolo-faca. Depois, é feito o plantio da muda sobre essa palhada.

Com isso, ocorre a diminuição da variação da temperatura do solo e o aumento da retenção de umidade, entre outros benefícios proporcionados pela palhada.

Após a colheita da cultura principal, o produtor novamente introduz uma planta de cobertura. E assim sucessivamente, sempre intercalando a planta de cobertura com a cultura principal.

Ao longo do tempo, isso aumenta a biologia do solo e a quantidade de micro-organismos, além da agregação e dos bioporos, fazendo com que o produtor avance continuamente na melhoria do solo de cultivo.

Faria em foto mostrando plantio de painço ao fundo | Fotos: Divulgação/CATI

CATI — O sistema pode ser utilizado em qualquer cultura?

Sérgio Augusto Martins Faria — Exatamente. Apesar de ter hortaliças no nome, o SPDH também pode ser utilizado na fruticultura, em grãos e em outros tipos de cultura. Qualquer cultura pode se encaixar no sistema.

Algumas são mais difíceis. A cenoura, por exemplo, apresenta desafios por causa da semente miúda. Nas culturas em que o produtor pode trabalhar com mudas, porém, o sistema é extremamente vantajoso.

Um detalhe importante é que, preferencialmente, o produtor deve utilizar uma muda um pouco maior, porque a proposta é formar uma camada densa de palha. As mudas muito pequenas utilizadas no sistema convencional de hortaliças acabam sendo encobertas pela palha. Por isso, uma muda maior apresenta vantagens.

CATI — Quais são os principais desafios durante a adoção do SPDH?

Sérgio Augusto Martins Faria — Existem algumas questões que podem comprometer o sistema, como o ataque inicial de lesmas, porque se cria um ambiente mais úmido.

Muitos produtores, ao se depararem com isso, acabam abandonando o sistema. Mas existem formas de controle, tanto no sistema convencional como no orgânico, com armadilhas, iscas comerciais e uso de cal virgem.

O produtor precisa monitorar essa situação porque, depois de dois ou três anos, o sistema se equilibra e esse problema também tende a desaparecer.

CATI — Além dos benefícios ambientais, quais são as vantagens econômicas e ergonômicas?

Sérgio Augusto Martins Faria — Existem várias. Os estudos que temos indicam a redução do uso de água e de agrotóxicos. Do ponto de vista ergonômico, o produtor pode utilizar equipamentos manuais simples, como plantadeiras. São plantadeiras muito utilizadas no plantio de eucalipto, mas podem ser adaptadas para hortaliças. Assim, não é necessário permanecer agachado para plantar, o que representa uma melhoria importante para quem trabalha com mudas de bandejas de hortaliças.

CATI — Como tem sido a experiência com produtores que adotaram o SPDH na região de Avaré?

Sérgio Augusto Martins Faria — Especificamente na região de Avaré, também temos o SPDH em sistemas orgânicos de produção.

Em pequenas áreas, em vez de utilizar herbicida, o produtor pode usar uma lona preta como solarização durante 15 dias. Ela apresenta um efeito de controle da palha semelhante ao uso de herbicida, sem esse gasto e podendo ser incorporada ao sistema orgânico de produção.

O produtor que quiser conhecer mais sobre o sistema pode procurar a Casa da Agricultura de seu município e conversar com o técnico da CATI. A rede tem esse projeto como uma iniciativa estadual e, à medida que os produtores demandarem, vamos procurar atendê-los da melhor maneira possível.

CATI — Existe uma planta de cobertura mais indicada para o início do sistema?

Sérgio Augusto Martins Faria — No início, o produtor deve procurar utilizar principalmente gramíneas, porque elas demoram mais para se decompor. Com isso, proporcionam uma palhada mais persistente, que pode durar até o final do ciclo da cultura.

A aveia-preta (na imagem) é uma opção para o inverno, enquanto o painço se destaca no verão por seu ciclo rápido.

Temos a aveia-preta, que é excelente para o inverno. No verão, também temos o painço. O painço tem um ciclo muito rápido, o que é vantajoso para o produtor. No verão, também temos sorgo-vassoura e milheto. Enfim, são várias gramíneas que podem ser utilizadas

CATI — Qual é a diferença entre planta de cobertura e adubo verde?

Sérgio Augusto Martins Faria — O conceito de adubo verde surgiu muito relacionado às leguminosas, que conseguem fixar o nitrogênio do ar.

Mas qualquer planta de cobertura também pode servir como adubo verde, porque forma biomassa e ela vai se decompor, liberando os nutrientes que a planta retirou das camadas mais profundas do solo.

Em tese, qualquer planta pode ser utilizada como adubo verde. No início do sistema, damos preferência às gramíneas para aumentar a quantidade de carbono no solo.

Para o produtor interessado em conhecer o SPDH e avaliar sua aplicação na propriedade, a orientação é procurar a Casa da Agricultura do município ou a Regional da CATI mais próxima.

Sorgo-vassoura, uma das gramíneas que podem ser utilizadas

▶︎ Assista à entrevista completa de Sérgio Augusto Martins Faria ao PodCATI: https://youtu.be/AAnxy3uCGEE

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