O sol acabou de nascer e no sítio São João, em Potirendaba, município ligado à área de atuação da CATI Regional São José do Rio Preto, o cuidado com o rebanho já está a todo vapor. Na “sala” de ordenha – adaptada para garantir o bem-estar animal e otimizar a coleta do leite com equipamento mecânico -, uma a uma, as vacas em lactação são preparadas, respeitando as regras sanitárias para manter a qualidade do leite. Assim começa o dia da família Ferrari, que, desde 2013, integra o Projeto CATI Leite.
Mas para chegar ao status de propriedade-modelo para centenas de produtores, especialmente os familiares, que se reúnem em vivências práticas e Dias de Campo organizados pela CATI, por meio da Casa da Agricultura local, um longo caminho foi percorrido.
“Quando eu conheci o Projeto, estávamos passando por um momento difícil e doloroso, com a perda do meu pai, que era nosso esteio e da nossa propriedade. Com 20 e poucos anos, me vi com uma pequena área, muitas dúvidas e pouca rentabilidade; em alguns momentos, tivemos dúvidas se seria possível continuar. Hoje, posso dizer que o CATI Leite proporcionou à nossa família a esperança de progressão, condições e estrutura para entender a atividade leiteira, aprendendo e aprimorando as técnicas que nos são transmitidas. Nesse meio-tempo, tivemos a benção de gerar um filho e a esperança de continuidade; estamos sustentáveis no sítio, com renda e qualidade de vida. Foi um divisor de águas”, declara emocionado o produtor Luis Fernando Ferrari, ao lado da esposa Daiane e do pequeno Artur, de cinco anos, que não vai para a escola sem antes abraçar o pai na sala de ordenha e dar “bom dia” para as vacas, as quais conhece cada uma pelo nome.
E para os produtores que visitam a propriedade (como aconteceu em setembro, quando 150 pessoas, de diversas regiões paulistas, participaram do Dia de Campo de relançamento do CATI Leite), o produtor enfatiza sua experiência e incentiva: “Eu sempre digo, tanto para os vizinhos como para os que nos visitam, que acreditem no Projeto e tenham confiança no trabalho do técnico da CATI, como temos aqui no Junior da Casa da Agricultura, que para nós foi um anjo que Deus enviou na nossa vida e hoje se tornou um irmão e um exemplo para o meu filho, que ama tudo na propriedade e adora ouvir os ensinamentos do ‘tio Junior’”, comenta emocionado.






E o “tio Junior”, Clodoveu Nicola Junior Colombo, médico-veterinário responsável pela Casa da Agricultura, também se emociona ao falar do projeto, em que atua como missão e não apenas trabalho, e da proximidade com as famílias envolvidas, como a de Luis Fernando.
“Não tem preço ver o fruto do nosso trabalho refletido na transformação de vida das famílias que integram o Projeto. Quando iniciamos aqui, falei para o Fernando o que repito para os outros produtores interessados em ingressar: as ações só serão positivas, se eles confiarem no trabalho que a gente direciona, acreditando em si mesmos e executando as metodologias propostas. E isso se concretizou aqui no sítio São João; saímos de uma produção de 146 litros/dia, em 2013, para os atuais 750 litros/dia. Mas, por si só, esse dado não é o mais importante, pois o que tem trazido qualidade de vida e a possibilidade de eles continuarem na atividade, com real perspectiva da sucessão familiar, foi a evolução e sustentabilidade econômica, saindo de uma renda bruta e um fluxo de caixa iniciais de R$ 59 mil para os atuais R$ 334 mil, ou seja, de quase R$ 28 mil mensais. Diante desse fato, não é preciso falar mais nada”, relata Junior, complementando: “Este é o valor da extensão rural, que faz a gente acordar de manhã, apesar de todos os desafios, e seguir!”.


Resultados do Projeto CATI Leite no Sítio São João
Em 2013, o cenário encontrado na propriedade era de uma produção de 146 litros/dia, com um rebanho de 17 vacas – sendo 15 em lactação, com uma média de 9,7L/v/dia na lactação; e 8,5L/v/dia no rebanho. A situação atual, impressa nas planilhas de gestão da propriedade, é de uma produção de 750L/dia, com um rebanho de 38 vacas, sendo 37 em lactação, com uma média de 20,2L/v/dia na lactação; e 19,7L/v/dia no rebanho.
Hoje, na área de pouco mais de 17 hectares, o rebanho tem alimento de qualidade e farto a pasto, em pleno inverno, cultivado em piquetes rotacionados com irrigação; silagem de qualidade, cujo excedente pode até ser comercializado; modelo de gestão integral, com anotação dos mínimos detalhes do custo de produção. Além disso, a família Ferrari segue à risca os compromissos assumidos diante da adoção da metodologia, entre os quais: preenchimento de planilhas de controle econômico e zootécnico; realização das vacinações obrigatórias e exames sanitários, bem como de análise de solo; e receber técnicos e outros produtores em ações de extensão rural.
O ganho ambiental também tem sido enorme. Após o cercamento da Área de Preservação Permanente (APP), acabou-se o trilheiro do gado, a mata nativa se regenerou e o curso d’água deixou de ser assoreado. A erosão também deixou de ter lugar no Sítio São João.