Queijo Porungo “Família Nanico”: a história por trás do sucesso, que conta com apoio da CATI Regional Itapetininga
Premiado com a medalha de ouro na 3.ª edição do Mundial de Queijo do Brasil 2024, o queijo produzido pela família de Jolice Antunes Toledo Cardoso, produtora rural de Angatuba, tem uma história que vai muito além das Boa Práticas empregadas
O dia mal amanheceu e o trabalho já está a todo vapor no Sítio Rainha da Paz. Adenilson Lucio Cardoso, Jolice Antunes de Toledo Cardoso e Denner Henrique Cardoso, pai, mãe e filho, respectivamente, já estão organizando a ordenha das vacas em lactação, obedecendo às normas e aos processos que garantem o bem-estar dos animais e a qualidade dos cerca de 120 litros de leite/dia, destinados inteiramente à produção diária de 40kg de queijo, comercializados no município de Angatuba, com o selo do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), para uma base de clientes: mercados e particulares.
No entanto, após a conquista da medalha de ouro no Mundial do Queijo do Brasil 2024, realizado em São Paulo – evento de abrangência internacional, que teve mais de 2.000 queijos inscritos, sendo promovido pela SertãoBras, associação de produtores de queijos artesanais, com mais de 250 associados, a maioria da agricultura familiar, em 17 Estados do Brasil, em parceria com a Guilde Internacionale des Fromagers, uma das maiores associações de queijeiros do mundo, presente em mais de 40 países –, a fama do queijo Porungo “Família Nanico” ultrapassou as fronteiras e está conquistando cada vez mais paladares e clientes.
A ideia da inscrição do queijo Porungo “Família Nanico” na competição foi da zootecnista Ana Paula Roque, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) Regional Itapetininga, que realiza ações de assistência técnica e extensão rural (Ater) na propriedade. “Desde o início do nosso trabalho de Ater, identificamos o diferencial do queijo e vimos a dedicação da família. Quando eu soube do concurso, não tive dúvidas, procurei a Jolice, expliquei como funcionava, fiz a inscrição e levei as amostras”.
Como a premiação aconteceu em um dia em que a família não pôde comparecer, Ana Paula foi a representante. E, durante o anúncio dos vencedores da medalha de ouro, não conseguiu segurar a emoção. “Senti uma alegria tão grande, que liguei para a Jolice; rimos e choramos juntas. Esse prêmio foi a coroação de uma tradição que faz parte dessa família há quase 50 anos”, comenta Ana Paula, complementando: “E também foi a resposta do trabalho de extensão rural em parceria com a agricultura familiar, comprovando a força desse segmento e qualidade que seus produtos podem alcançar em mercados tão concorridos como o das queijarias”.
Única dos seis irmãos que permaneceu tendo a produção de queijo e a pecuária leiteira como principal fonte de renda, Jolice relata: “Eu costumo dizer que herdamos essa missão dos meus pais, junto com os clientes, pois hoje temos avós, pais, filhos e netos que adquirem a nossa produção. Daqueles dias difíceis, em que tirávamos leite na mão, fazíamos alguns queijos e “corríamos” atrás dos clientes, hoje é uma satisfação muito saber que não apenas mantivemos a produção viva, mas levamos o queijo “Família Nanico” para além das fronteiras com o apoio da CATI, especialmente da Ana e do Marcelo (diretor da CATI Regional Itapetininga), aos quais somos muito gratos”.
Compartilhando a emoção, d. Dilma Galdino de Toledo, a matriarca da família, fala sobre o significado do prêmio, que ganhou destaque em um quadro na entrada do pequeno laticínio instalado na propriedade. “Quando eu soube, vieram muitas lembranças na minha cabeça; de quando vendíamos de porta em porta e não íamos embora para casa antes de vender tudo, apesar das reclamações dos filhos que iam ajudar (conta rindo). Lembrei do meu falecido esposo, o José, que tinha apelido de Nanico, por isso a homenagem carinhosa no nome do queijo que tanto incentivou a fazer. Hoje, vendo a Jolice, meu genro e meus netos dando continuidade a esse legado é uma alegria muito grande”.
“Como extensionista rural da CATI, é uma imensa alegria poder contribuir para que a família ‘Nanico’ continue a preservar a tradição do Queijo Porungo em nossa região, transmitindo seu conhecimento a todos que desejam iniciar neste processo, mantendo viva essa história de superação e persistência”, comenta Ana Paula Roque.

Produção do queijo garante a sucessão familiar e apoio científico na fabricação
A renda oriunda da produção e comercialização do queijo Porungo vai além do sustento da família. Ela permitiu que os filhos de Jolice e Adenilson estudassem em suas áreas de interesse: Denner é técnico agrícola e escolheu permanecer no sítio aplicando seus conhecimentos ao lado dos pais; Maria Luiza é engenheira de alimentos, atuando em um Laticínio da cidade. E o orgulho enche o coração dos pais e da avó, que transbordam de felicidade por vê-los, cada um com sua vocação, dando continuidade à tradição da família como produtores rurais e produtores do queijo Porungo.
“Eu tive a oportunidade de cursar Agronomia, mas, como já sou formado técnico agrícola, escolhi estar em tempo integral no sítio seguindo os passos dos meu pais e me aprimorando como produtor rural, investindo em tecnologia e novos conhecimento para nos manter na atividade com produtos de qualidade e renda”, explica Denner, enfatizando que o ganho em qualidade de vida é imensamente maior que atuar na cidade.
Apesar de trabalhar fora da propriedade da família, Maria Luiza tem um papel preponderante na produção de queijo Porungo na região. Para além do conhecimento empírico e o saber tradicional, os produtores da região ganharam amparo científico, com suas pesquisas na graduação e mestrado realizados na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
“Em 2015, quando iniciei o curso de Engenharia de Alimentos na UFSCar Lagoa do Sino, me deparei com a pesquisa de iniciação científica. Sabendo que produzíamos um queijo que não era conhecido e nem estudado, iniciei junto ao meu orientador, Prof. Natan Pimentel, um projeto de extensão para conhecer as características microbiológicas do queijo Porungo. Ao mesmo tempo, o Prof. Naaman Nogueira deu início às pesquisas voltadas para a descoberta das características físico-químicas do queijo Porungo; estudos estes muito importantes para conhecimento da qualidade do queijo e para elaboração dos Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade (RTIQ) – dos produtos de origem animal – do queijo e segurança do consumidor, explica Maria Luiza.
Após esta etapa dos trabalhos, a já engenheira de alimentos iniciou o mestrado também voltado ao queijo Porungo. “Desta vez, foquei minha pesquisa na influência da filagem, única etapa em que o queijo passa por temperaturas altas, avaliando essa temperatura para reduzir a carga microbiana presente. Essa parceria da universidade foi essencial para que nós, produtores de queijo Porungo, conquistássemos o selo do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), que nos abriu novos mercados e garantiu a segurança do produto que vendemos aos nossos clientes”.


Sobre o queijo Porungo e o trabalho da CATI Regional Itapetininga
O Queijo Porungo é um queijo artesanal, de massa filada, tradicionalmente produzido por agricultores familiares dos municípios da região sudoeste do Estado de São Paulo, incluindo Itapetininga, Angatuba, Buri, Campina do Monte Alegre, Guareí, Capão Bonito, dentre outros. O nome “Porungo” está relacionado à forma do queijo, que se parece com a porunga, fruto da Lagenaria siceraria (que lembra uma cabaça com pescoço alongado).
De acordo com Ana Paula Roque, seu processo de produção se assemelha aos do queijo Caciocavallo italiano e queijo Cabacinha de Minas Gerais, empregando-se leite cru integral recém-ordenhado e soro-fermento oriundo da fabricação do próprio Queijo Porungo do dia anterior. As características de qualidade química e microbiológica e a composição do Queijo Porungo encontram-se regulamentadas pelo Decreto n.° 325, de 29 de agosto de 2018, que estabeleceu o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Queijo Porungo em Angatuba, único município paulista a ter regulamentação própria para o queijo.
Segundo Marcelo Ament Giuliani dos Santos, diretor da CATI Regional Itapetininga, à qual o município de Angatuba está ligado, a instituição tem ampliado o atendimento aos produtores. “Atuamos com o grupo de produtores de queijo Porungo que faz parte do Serviço de Inspeção Municipal (SIM) de Angatuba, orientando a produção do leite com qualidade, respeitando as Boas Práticas de manejo dos animais, atendendo à legislação e cuidados com a sanidade animal, o manejo da alimentação do rebanho e a gestão da propriedade. Mas também atuaremos mais intensamente com ações voltadas à conservação do solo e da água, implementando o Projeto Feap Berços d’Água.