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Monitoramento realizado pelo Instituto de Pesca fornece subsídios para mudanças na legislação pesqueira em SP

Monitoramento realizado pelo Instituto de Pesca fornece subsídios para mudanças na legislação pesqueira em SP

Atendendo a demandas de pescadores artesanais, Estado poderá retomar modalidades de pesca restritas em outras partes do país

Por Gustavo Almeida – Assessoria de Imprensa APTA

Um esforço conjunto entre pescadores artesanais, gestores de áreas de preservação e pesquisadores científicos possibilitou a atualização de legislações federais que impactavam diretamente a pesca no litoral paulista. Dados do Monitoramento da Atividade Pesqueira, realizado pelo Instituto de Pesca (IP-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, desde a década de 40, serviram de embasamento na argumentação junto à esfera federal.

“Essas legislações normatizam a pesca com redes de emalhe nos litorais Sudeste e Sul do Brasil”, contextualiza o pesquisador do IP Jocemar Tomasino Mendonça. As leis a que se refere são a INI MPA/MMA nº 12, de 2012, e a IN IBAMA Nº166, de 2007. A primeira proíbe o uso de redes de emalhe em embarcações motorizadas na primeira milha náutica, e a segunda determina que as redes de emalhe de superfície devam ficar a pelo menos 2 metros abaixo da linha d’água. A existência do regramento é voltada à proteção das chamadas espécies não-alvo da atividade pesqueira, como tartarugas, toninhas e golfinhos, que são sensíveis à modalidade.

“A INI nº12 acabava prejudicando a atividade dos pescadores artesanais, porque 80% da pesca de emalhe do Estado de SP ocorre dentro da primeira milha náutica. Então, os pescadores eram obrigados a pescar fora dela, mais profundo, em áreas com menor produtividade e não tradicionais para esse tipo de pesca”, explica Mendonça.

Com o intuito de encontrar uma solução que fosse justa para os pescadores e responsável do ponto de vista ambiental, o pesquisador relata que foi criado, em 2019, o Grupo de Trabalho do Emalhe, por iniciativa dos gestores das Áreas de Proteção Ambiental dos litorais Norte, Centro e Sul (APAs Marinhas). “Nesse grupo, são realizados fóruns de discussão entre pescadores, pesquisadores de pesca e fauna incidental (mamíferos marinhos, quelônios etc) e gestores das unidades, buscando soluções para que não haja impacto sobre esses animais acompanhantes, mas também não se inviabilize a atividade pesqueira”, detalha o pesquisador do IP.

Como frutos das discussões, o GT conseguiu interceder junto à Secretaria de Aquicultura e Pesca, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SAP/MAPA), para que a legislação fosse ajustada de acordo com a realidade do Estado de SP.  No começo de 2020, a SAP publicou uma nova Instrução Normativa, a IN MAPA nº15, que modifica a anterior e volta a permitir, apenas para o litoral de SP, a pesca com redes de emalhe na primeira milha náutica. “Depois dessa primeira conquista, o grupo continuou trabalhando e, esse ano, com mediação do Ministério Público e Defensoria Pública, reuniu-se com a SAP para ver se era possível liberar a pesca com rede de emalhe de superfície, da maneira que era utilizada tradicionalmente, com a rede na linha d’água”, narra o especialista. Através da articulação, o GT conseguiu outro ajuste na legislação, com a publicação da Portaria SAP/MAPA Nº 356, de agosto de 2021, que suspende temporariamente a IN 166 e volta a permitir o uso das redes próximo à superfície, exclusivamente no litoral paulista.

Monitoramento pesqueiro do IP é peça chave

Na visão de Mendonça, um dos principais motivos de o Estado de SP ter conseguido os ajustes que beneficiam a atividade pesqueira é a existência de dados sólidos e confiáveis sobre a pesca em seu litoral. “Nessas discussões, por meio do Monitoramento da Atividade Pesqueira, o IP entra com todas as informações de pesca necessárias para poder ter um panorama da atividade”, pontua o pesquisador do Instituto.

Segundo ele, vendo que existia mobilização e organização, boa gestão feita pelas APAs e a presença de um monitoramento pesqueiro eficiente, a SAP concedeu as modificações, adaptando as legislações ao cenário paulista. “Isso foi feito atendendo a demandas dos próprios pescadores, mas também tendo todo um cuidado para que consiga ser feita a medição dos efeitos desses ajustes”, ressalta Mendonça. Nesse sentido, o rastreamento dos desdobramentos que acompanharão as mudanças será peça chave para avaliar seu futuro. “Para esse tipo de pesca que está envolvido, relacionado majoritariamente à atividade artesanal, as medições indicam que não é tão impactante à fauna quanto se previa quando foram construídas as legislações”, afirma o pesquisador. Sendo mantido o monitoramento, avalia, o IP será capaz de produzir relatórios e publicações mostrando os reais efeitos dos ajustes. “Caso haja algum impacto, ele será captado”.

Mendonça acredita que as mudanças são um avanço, pois, em sua maioria, a pesca de emalhe no Estado já é feita respeitando o meio ambiente. O pesquisador cita como exemplo o artigo que diz que a pesca precisa ser assistida, com as redes sendo monitoradas pelo pescador a uma distância máxima de 1000 m, possibilitando a liberação manual de animais que sejam capturados inadvertidamente e evitando a mortalidade. “A pescaria artesanal de emalhe – que é o principal público afetado pela legislação – já é feita dessa maneira. Tradicionalmente, os pescadores colocam a rede e ficam no entorno do cardume, saindo dali apenas quando termina a pescaria”, elucida o especialista. Dessa forma, garante, não haveria nenhum ônus ao pescador com as atualizações. “Isso tanto nas pescarias de inverno – tainha e sororoca -, quanto nos estuários, onde as redes são utilizadas na pesca de parati, carapeba, caratinga, etc. O pescador não deixa as redes sozinhas”, afirma.

O pesquisador do IP comemora os avanços e acredita que SP está à frente no que diz respeito à regulamentação da pesca. “É Importante dar valor ao que SP tem hoje, um grupo de gestão que está sempre buscando discutir os temas mais relevantes em relação à atividade pesqueira”, assegura. Para ele, o monitoramento pesqueiro é uma grande vantagem paulista na argumentação sobre as leis. “SP pode realizar o monitoramento e medir o antes, durante e depois de qualquer ajuste na legislação, algo que é muito raro no Brasil”, menciona. No país, conforme descreve, não há muitas agências de monitoramento, principalmente em águas interiores, continentais, o que faz com que os ajustes fiquem mais difíceis, pois não há como mensurar as repercussões. “Em nosso Estado, conseguimos medir os efeitos, levar para a mesa de discussão e verificar o que deve ser feito de ajuste ou não. Temos grandes trunfos: pescadores ativos, gestores voltados à manutenção dos recursos e da pescaria, e dados e informações confiáveis”, finaliza.

 

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